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Foi encontrada uma correlação entre as condições climáticas da época do surto de cocolitzli no século 16 e do ano de 1993, quando ocorreu uma epidemia de hantavírus no Novo México. Em ambos os casos um longo período de seca foi seguido por uma fase de clima úmido. Na epidemia de hantavírus, a seca forçou a população de ratos a se reunir de forma muito próxima na procura de comida e água, o que pode ter disseminado o vírus entre os animais. Quando o clima úmido se seguiu à seca, a população de roedores explodiu e tomou contato com populações humanas. Os pesquisadores acreditam que um processo similar pode ter ocorrido também nas epidemias de cocolitzli no século 16.

 

 NOTÍCIAS :: HISTÓRIA

Epidemia local teria dizimado população nativa do México
Doença do século 16 não foi levada por europeus, sugerem dados histórico-climáticos

Os registros históricos das epidemias que dizimaram a população nativa do México no século 16 apontam que as doenças não foram levadas pelos conquistadores, como se pensou por muito tempo, mas que eram febres hemorrágicas de origem local desconhecidas pelos europeus. Um estudo publicado em fevereiro de 2002 na revista Emerging Infectious Diseases revela que uma seca prolongada pode ter propiciado a disseminação de epidemias. Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que a população sucumbiu porque era subnutrida e explorada pelos conquistadores.

A população nativa mexicana foi dizimada por três epidemias no
século 16: uma de varíola (trazida pelos europeus) e duas de cocolitzli, de suposta origem local (fonte: Cook e Simpson)

Logo após a chegada dos europeus no México ocorreu um dos piores casos de dizimação humana de que se tem notícia -- apenas a epidemia de 1545 matou mais de 80% da população nativa. Acreditava-se que as doenças eram trazidas da Europa e África, como a varíola que matou 8 milhões em 1519, mas os dados históricos apontam que as epidemias massivas de 1545 e 1576 foram causadas por uma febre hemorrágica chamada cocolitzli.

Os registros deixados por Francisco Hernández, médico pessoal do Rei Felipe II da Espanha, indicam que a doença era desconhecida pelos europeus. Os sintomas descritos incluem febre alta, dor-de-cabeça, vertigem, sangramento nos olhos, nariz e boca, urina escura, grandes nódulos atrás das orelhas e morte dentro de três ou quatro dias. Até hoje o agente infeccioso da cocolitzli não foi isolado e os cientistas sequer sabem se é viral ou bacteriano.

A hipótese de que as doenças eram nativas foi corroborada pela reconstituição do clima da época, coordenada pelo geocientista Malcolm Cleaveland, da Universidade de Arkansas (EUA), um dos autores do artigo. "Analisamos a largura dos anéis do tronco de árvores porque indicam condições de seca e umidade", ele explica à CH on-line. A pesquisa concluiu que a seca ocorrida entre 1540 e 1580 pode ter deflagrado as epidemias de 1545 e 1576. O padrão de alastramento geográfico da doença, que partiu dos vales centrais do norte para o sul, também aponta para a hipótese de origem local. Os pesquisadores tomaram ainda epidemias posteriores como possíveis modelos para os surtos do século 16.

A grande seca do século 16 no México estaria associada às epidemias de cocolitzli em 1545 e 1576 (fonte: Cleaveland)


O vetor que transmite a doença permanece desconhecido. Acredita-se que ainda exista -- os cientistas apostam em roedores ou mosquitos --, mas uma nova epidemia parece improvável. "A catástrofe do século 16 surgiu na conjugação entre a seca mais severa observada desde então e a exploração da população pelos conquistadores europeus", destaca o pesquisador.

Por que a cocolitzli atingiu quase exclusivamente os nativos permanece um mistério. "É possível que eles tivessem mais contato com os vetores da doença, mas é fato que os colonizadores espanhóis praticamente não tiveram casos de infecção", Cleaveland observa. "Por isso acreditava-se na origem européia da doença, hipótese que foi derrubada pelos dados históricos." Os pesquisadores atualmente trabalham para estender a análise climática e solicitaram o acesso a novos registros coloniais.

Raquel Aguiar
Ciência Hoje on-line
28/03/02

 

 
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