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Intercâmbio Brasil-China verificado já no século 18
Relíquias chinesas antigas ajudam a recontar história do contato entre os dois países
O intercâmbio cultural entre Brasil e China é mais antigo do que se imagina, segundo estudo desenvolvido pelo professor de história Zhou Shixiu, coordenador-adjunto do Programa China-Ásia-Brasil da Universidade Cândido Mendes (RJ). Relíquias chinesas encontradas em território brasileiro indicam que os contatos entre os dois países começaram pelo menos um século antes do que afirmam os registros oficiais.
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Entalhes chineses no altar da Igreja de Nossa Senhora do Ó (Sabará/MG) indicam intercâmbio cultural sino-brasileiro já no século 18 (foto: Eustáquio Zarley/Prefeitura de Sabará) | | |
Segundo tais registros, os primeiros contatos entre Brasil e China aconteceram no início do século 19, quando chineses especializados no cultivo de chá chegaram ao território brasileiro para trabalhar no então recém-inaugurado Jardim Botânico. "Muitos não sabem que, já na época do descobrimento do Brasil, começou um intenso intercâmbio cultural e comercial entre as duas nações", conta Shixiu. "O Brasil e o território chinês de Macau eram colônias de Portugal e, por isso, muitos produtos vindos da China chegaram ao território brasileiro entre os séculos 16 e 18", explica.
Em suas viagens pelo Brasil, o historiador descobriu objetos chineses que datam dos séculos 17 e 18. "Fiz pesquisas em bibliotecas e museus do Rio de Janeiro e viajei pelos estados de Minas Gerais, Bahia e Pará", conta. "Encontrei relíquias chinesas do século 17 como pinturas antigas, leques e outras." Imagens de santos com aparência de monge chinês também reforçaram a tese de Shixiu.
Além disso, na Igreja de Nossa Senhora do Ó, em Sabará (MG), o historiador observou entalhes chineses no altar. Ainda em Sabará, na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, o professor descobriu uma porta com motivos orientais. Essas duas igrejas foram construídas no século 18, o que sugere que existia já nessa época um efetivo intercâmbio cultural sino-brasileiro.
Shixiu acredita que as trocas entre China e Brasil podem ter começado ainda no século 16, com navegações de Macau para Rio de Janeiro e Salvador. "Provavelmente, os primeiros chineses que chegaram eram comerciantes", diz. "Mais tarde, durante o ciclo do ouro no Brasil, vieram arquitetos, pintores e artesãos chineses que se estabeleceram principalmente em Minas Gerais."
O historiador se dedica há muitos anos ao estudo da relação entre China e América. "Analisei documentos chineses antigos e acredito que os orientais estiveram na América antes de Cristóvão Colombo." Hoje, após suas pesquisas no Brasil, Shixiu está de volta à China, onde estuda novos dados sobre as relações entre os dois países.
Shixiu é um caso raro de professor chinês de História que sabe falar português. "Por isso, considero o estudo do intercâmbio cultural entre China e Brasil uma grande responsabilidade", declara. "Esse trabalho é importante porque as duas nações são protagonistas no processo de criação de uma nova ordem econômica e política mundial: uma ordem multipolar, em que as diversas culturas possam desfrutar de um ambiente internacional favorável ao desenvolvimento sustentável e pacífico."
Fernanda Marques Ciência Hoje on-line 14/05/02 |