A tensão entre liberdade e propriedade marcou os três séculos de escravidão no Brasil. A primeira, perseguida pelos escravos, inspirou inúmeros motins e conflitos daquela época. Já a propriedade -- da qual os cativos eram objeto -- deveria ser garantida pelas autoridades, para que se mantivesse a ordem social vigente e não houvesse descontentamento da elite. Mas se os negros reconheciam a força de sua humanidade como arma capaz de romper as amarras do sistema escravista, eles eram considerados pelos proprietários apenas objetos exóticos e 'ferramentas de trabalho'.
A fim de recuperar algumas dessas visões da sociedade sobre a presença dos cativos no Brasil, uma coletânea de imagens sobre a escravidão foi organizada pelos historiadores Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de São Paulo (USP), e Boris Kossoy. O olhar europeu - o negro na iconografia do século 19 reúne 78 fotografias produzidas por estrangeiros. O livro ajuda a retraçar a trajetória social dos escravos e fornece elementos para um estudo histórico da mentalidade brasileira.
Os autores colheram o material do livro em arquivos, bibliotecas e no acervo do fotógrafo Militão Augusto de Azevedo (cedido por familiares). Seu objetivo foi mostrar como essas imagens, até então vistas como manifestações artísticas, são documentos históricos repletos de significados, evidências de singularidades do cotidiano do século 19. A publicação conta com imagens de Jean-Baptiste Debret, Charles Guillaume Théremin, Henry Koster e Johann Moritz Rugendas, entre outros.