O atual alfabeto, sistema de escrita mais difundido no mundo ocidental, teve origem há 4 mil anos no Egito, quando pela primeira vez se tentou representar toda a variedade de significados da língua mediante o emprego de símbolos gráficos pré-fixados. O percurso das 26 letras que compõem a escrita atual é retraçado no livro A história do alfabeto, de John Man. À luz das mais recentes descobertas, o historiador mostra que o tema ainda guarda mistérios.
A escrita, segundo o autor, teria sido inventada quatro vezes, de forma independente, na China, Egito, América Central e Mesopotâmia, em cerca de 4000 a.C. Já o alfabeto teria surgido uma única vez, no Egito, há 4 mil anos. Até então, os sistemas de escrita eram silábicos ou ideográficos -- com uso de sinais que representam objetos concretos.
Tais sistemas comportavam o problema da ambigüidade: nos hieróglifos egípcios, por exemplo, um sinal gráfico podia representar o objeto retratado ou o som de sua primeira letra. Assim, o símbolo para água, que soava como net em egípcio antigo, podia representar água propriamente ou o som n. Nas escritas silábicas, de forma semelhante, cada símbolo poderia representar o objeto retratado ou o som da primeira sílaba da palavra. Em geral, sinais determinativos indicavam como deveria ser feita a leitura de cada símbolo, mas em diversos casos a ambigüidade permanecia.
As mais antigas inscrições alfabéticas conhecidas são vestígios de cerâmica descobertos em 1990 no Egito. Os fragmentos apresentam a raiz do que seriam as atuais letras a, b, r, n, m, p, w e t. O conceito de alfabeto se difundiu do Egito para regiões adjacentes e atingiu a Ásia em cerca de 1200 a.C. Muitas vezes a dispersão pode ser explicada por trocas comerciais, como na relação observada entre fenícios e gregos no final dos anos 900 a.C. A partir de adaptações gregas do alfabeto fenício, surgiu em 800 a.C. o alfabeto do mundo ocidental. Os mais antigos registros conhecidos de obras realizadas com tal sistema foram A Ilíada e A Odisséia (século 8 a.C.), atribuídas a Homero.
O autor argumenta que os gregos não teriam exercido tanta influência sobre a civilização ocidental não fosse a invenção do alfabeto, que permitiu fixar seus escritos. Destaca ainda que os gregos foram fundamentais para a difusão do sistema alfabético devido a seu desenvolvimento cultural. O próprio termo alfabeto surgiu das duas primeiras letras do sistema grego, alfa e beta. A tomada da Grécia pelos romanos, segundo o autor, explica como o alfabeto se tornou romano, com 23 letras -- faltando apenas o j, u e w em relação ao sistema atual.
As origens do alfabeto que usamos hoje ainda não foram completamente esclarecidas e novas descobertas continuam vindo à tona. John Man analisou as mais recentes pesquisas para traçar o percurso do alfabeto desde os sistemas de escrita mais rudimentares. Além de analisar dados históricos e mitos, o livro traz um apêndice com a transliteração de alfabetos como o hieroglífico, fenício, grego e etrusco.