Há 60 anos, o Brasil entrava na Segunda Guerra Mundial. O apoio do país ao bloco aliado rendeu-lhe financiamento para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional e para o armamento do país, que se tornou a nação com maior capacidade bélica do continente. O isolamento territorial do Brasil em relação aos principais fronts de combate ajuda a pintar um cenário muito favorável ao país, no qual Getúlio Vargas poderia optar calmamente a que lado do conflito aliar-se, em função das vantagens que cada bloco de poder era capaz de lhe oferecer.
Ainda que vários autores se aproximem dessa visão, nada é mais equivocado, segundo Vágner Camilo Alves, professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC-Rio. Em seu livro O Brasil e Segunda Guerra Mundial - história de um envolvimento forçado, Alves sustenta que as decisões dos países periféricos eram condicionadas pelo contexto da guerra. Relativiza, assim, supostas decisões autônomas desses países. Embora não negue que o Brasil tenha tido certo poder de barganha antes de entrar no conflito, Alves mostra como esse poder era restrito e como a liberdade de escolha era só aparente.
Segundo o autor, em meados da década de 30, o Brasil representava importante meta na política exterior de duas das maiores potências mundiais, que entrariam em choque na guerra: Estados Unidos e Alemanha. Os interesses alemães eram sobretudo comerciais e de curto prazo. Já para os norte-americanos, interessava a forte influência regional que o Brasil exercia no continente. Para Alves, a adesão brasileira aos princípios liberais no comércio internacional seria o primeiro passo para consolidação do bloco de poder dos EUA no hemisfério ocidental.
Iniciado o conflito, o Brasil adquire valor estratégico de defesa para os norte-americanos, dado seu extenso litoral nordestino. Alves descreve como o Brasil assume gradualmente maior importância para os EUA no desenrolar da guerra. Quanto maior e mais nítido se torna o interesse norte-americano sobre o país, maiores as possibilidades de o Brasil obter ganhos materiais com o seu alinhamento.
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Oswaldo Aranha anuncia rompimento de relações diplomáticas do Brasil com os países do Eixo, em 28/01/42 (foto: reprodução - FGV/CPDOC) | | |
O autor ressalta, porém, que um erro de timing ou uma posição intolerante do governo brasileiro poderia pôr tudo a perder, já que obrigaria os EUA a usarem a força. Assim, a opção pelo alinhamento com os aliados não foi uma decisão autônoma dos estadistas brasileiros, mas uma tendência natural. Coube a Vargas e seus assessores negociar nesse processo ganhos substanciais para o Brasil.
Embora hoje diversos conflitos armados se desenrolem pelo globo, a Segunda Guerra continua a inspirar livros, filmes e reflexões. Afinal, "essa guerra foi e continua sendo uma excelente história", como defende Alves. Nenhum outro conflito envolveu tantos atores nem teve protagonistas com tanto magnetismo. Por isso, O Brasil e a Segunda Guerra Mundial deve atrair muitos leitores. Apesar de se tratar de uma dissertação de mestrado, a linguagem é leve e fluida, embora expressões do jargão acadêmico apareçam aqui e ali.