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Os tons avermelhados utilizados na época eram o carmim e o púrpura. O primeiro corante era extraído do corpo do inseto kermes (Kermes vermilio), parasita do carrasqueiro mediterrâneo; no caso do segundo, a tintura púrpura consistia num líquido viscoso extraído das brânquias de moluscos gastrópodes, de mesmo nome da cor.



O local exato onde foi erguida a primeira feitoria de pau-brasil revela onde se localizava o primeiro núcleo de civilização européia abaixo do equador. A teoria mais aceita defende que ela se localizava em Cabo Frio, na Região dos Lagos (RJ); no entanto, as pesquisas de Fernando Fernandes apontam para outro lugar. Segundo ele, a Baía de Guanabara -- mais precisamente a Ilha do Governador -- seria o ponto estratégico de águas calmas e indígenas amigáveis, onde nasceu a 'terra do brasil'.

 

 NOTÍCIAS :: HISTÓRIA

Nossa história pela ótica do pau-brasil
Livro e exposição resgatam 300 anos de trajetória do primeiro ciclo econômico colonial

O pau-brasil marca um ponto de partida na história de nosso país: sua exploração deflagra o primeiro grande ciclo econômico da colônia. Mais de 500 anos depois, a árvore volta a atrair as atenções: ela é o tema do recém-lançado livro Pau-brasil, organizado pelo historiador Eduardo Bueno, e da mostra O pau-brasil em nossas raízes, montada no Espaço Cultural da Marinha (Rio de Janeiro). "A data da exposição coincide com os 500 anos do primeiro monopólio criado no Brasil", lembra o comandante Paulo Roberto Spranger, diretor do Serviço de Documentação da Marinha.

Árvore de pau-brasil (Caesalpinia echinata) vista por baixo (fotos: reprodução / Pau-brasil)

A história da árvore começa nas cortes européias do século 16, onde a cor vermelha era sinônimo de status, devido a sua difícil obtenção. Como a madeira do pau-brasil produz um pigmento que tinge em várias tonalidades dessa cor, ela logo se tornou um produto lucrativo para o mercado europeu, e a velocidade com que as toras da árvore se espalharam pelo Velho Mundo chama a atenção dos historiadores.

À esquerda, Le teinturier en rouge de Nurenberg, manuscrito dos anos 1500 que mostra a preparação de tintura com pigmento de pau-brasil. À direita, flor da árvore de pau-brasil


Os portugueses chegaram ao Brasil em 1500 e, segundo os registros históricos, não identificaram nenhuma riqueza no país. No entanto, apenas dois anos depois já havia um monopólio para exploração do 'pau-de-tinta'. Para Fernando Fernandes, pesquisador do pau-brasil, esse fato reforça a teoria de um 'pré-descobrimento' do Brasil. Seus argumentos são simples: em meio à imensa diversidade da Mata Atlântica seria muito difícil identificar em tão curto espaço de tempo uma espécie com propriedades tintoriais como as do pau-brasil. O fato de nenhum dos portugueses conhecer a planta torna ainda mais improvável essa rápida identificação.

Fernandes sugere no livro que, antes de Cabral, outros navios poderiam ter vindo ao Brasil, e que o reconhecimento do país teria sido feito por aventureiros ou degredados. Essa hipótese justifica a ampla exploração da árvore já em 1503, quando foi construída a primeira feitoria para seu comércio.

Áreas remanescentes de pau-brasil hoje (pontos
amarelos); em verde, a Mata Atlântica no séc. 16

O pau-brasil está diretamente ligado à origem da colonização do país. Durante o primeiro século do Brasil, foram os franceses, atraídos pela matéria-prima rentável, que reconheceram os melhores nichos do 'pau-de-tinta' e passaram a lucrar com ele. Portugal reagiu com a colonização, uma medida para manter afastados os contrabandistas. Em torno dessa disputa (existente desde o tratado de Tordesilhas) foi proferida a famosa frase de Francisco I, então rei da França: "Gostaria de ver a cláusula de Adão que me afastou da partilha do mundo".

O ciclo de exploração do pau-brasil durou mais de 300 anos, sendo os últimos destinados ao pagamento da dívida brasileira com o Banco da Inglaterra (ironicamente, o mesmo país onde surgiram os corantes artificiais que determinaram o fim do comércio do pau-brasil).

 
Recentemente, foi descoberto um novo potencial econômico para a árvore: sua madeira faz os melhores arcos de violino do mundo. Apesar da importância histórica, pouco se fez em relação à preservação do pau-brasil, que possui poucos remanescentes em alguns focos do Rio de Janeiro e do Nordeste.

Livro: Pau-brasil
Eduardo Bueno (org.)
São Paulo, 2002, Editora Axis Mundi
280 páginas - R$ 80 (edição luxo) ou R$ 35,00 (edição brochura)
Exposição: O pau-brasil em nossas raízes
Espaço Cultural da Marinha
Endereço: R. Alfredo Agache, s/nº, Centro - Rio de Janeiro/RJ
Telefones: (21) 3870-6025 / 3870-6879
De terça a domingo, das 12h às 17h
Até 31/03/03
Entrada gratuita

Gisele Lopes
Ciência Hoje on-line
11/12/02

 

 
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