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 NOTÍCIAS :: GEOCIÊNCIAS

Novas coordenadas para o Brasil 
Cartógrafos se preparam para adotar referencial geocêntrico em mapas

 O Brasil irá mudar seus mapas. Normalmente, eles eram desenhados tendo como referência um ponto na superfície terrestre. Com o avanço dos sistemas de satélites, países do mundo inteiro têm adotado o centro de massa da Terra como novo referencial. Trata-se da troca do antigo sistema topocêntrico pelo geocêntrico, mais moderno e preciso. A mudança é uma das conclusões do 1o Seminário sobre Referencial Geocêntrico no Brasil, organizado no Rio de Janeiro entre 17 e 20 de outubro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Antes do avanço da tecnologia de satélites, cada país determinava um ponto qualquer em seu território como referencial - no caso do Brasil, o ponto adotado desde 1969 fica em Chuá, localidade do município de Uberaba (MG). O cartógrafo então traçava um elipsóide para representar a superfície da Terra (por ser achatada nos pólos, não é recomendável considerá-la uma esfera), e este tinha que passar exatamente sobre o referencial. Em seguida, os mapas eram desenhados por métodos de triangulação unidos à geometria das superfícies curvas. É o que se chama de topografia.

A topografia era feita com a ajuda de marcos e instrumentos de mensuração, como os teodolitos. A partir da posição e distância exata entre dois pontos, era possível determinar um terceiro pelos ângulos formados entre os três. Para isso, os técnicos muitas vezes tinham que percorrer lugares inóspitos: "Imagine como era difícil subir morros com os equipamentos pesados ou estar em lugares fechados como a floresta amazônica, onde os pontos eram determinados com a ajuda das estrelas", recorda Ângelo José Pavan, diretor-adjunto do IBGE e um dos organizadores do evento.

Elipsóides feitos a partir dos referenciais topocêntrico (à direita, em preto) e geocêntrico (azul) não coincidem


Já no sistema geocêntrico, o elipsóide é desenhado a partir do centro da Terra. Se no sistema antigo as cartas de países vizinhos muitas vezes não batiam, pois seus elipsóides se localizavam em lugares distintos, no novo método cartográfico o problema é contornado, já que o referencial é o mesmo para todos: o centro do planeta. O geocentrismo só se tornou possível graças a técnicas como o GPS (sigla em inglês para 'sistema de posicionamento global'), em que as coordenadas são definidas por satélites. "Rastreadores digitais são muito mais precisos que os teodolitos, e são tão práticos que podemos encontrá-los até em relógios", completa Pavan.

O IBGE prevê uma transição lenta de um sistema para outro. Um dos objetivos do evento no Rio foi orientar os usuários de mapas quanto à necessidade de adotar um referencial mundialmente aceito. Pavan não recomenda o uso simultâneo dos dois sistemas que, por ter referenciais distintos, apresentam grande diferença de coordenadas. "Ou se usa um ou outro. O que importa é você saber onde está."

Pablo Pires Ferreira
Ciência Hoje/RJ
27/10/00

 

 
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