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 NOTÍCIAS :: GEOCIÊNCIAS

Reciclagem de nutrientes em clima tropical úmido 
Concentração de Ca e Mg cresce em rios em época chuvosa e contraria modelo teórico

O processo de reciclagem de nutrientes nos ecossistemas tropicais úmidos ocorre de modo diferente se comparado aos demais tipos de clima. Um estudo feito por uma equipe do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) em parceria com pesquisadores da Universidade da Geórgia (EUA) parece provar que, em uma pequena bacia hidrográfica amazônica, ao contrário do que explicam as teorias geoquímicas, a concentração de cálcio e magnésio em riachos aumenta nas épocas de chuva.

Folhas, flores e frutos que caem de árvores e são arrastados para dentro dos rios são a explicação para o aumento dos níveis de cálcio e magnésio

Os modelos teóricos que descrevem os ciclos do cálcio e magnésio nos ecossistemas foram desenvolvidos a partir de experimentos feitos em países de clima temperado. Segundo o biogeoquímico Ricardo Figueiredo, coordenador do estudo no Ipam, esses modelos firmaram a idéia de que, em épocas de chuva, a concentração desses nutrientes nos rios diminui. "Nas regiões temperadas, os rios são alimentados pelas águas dos lençóis freáticos", conta. Esses lençóis são bastante ricos em cálcio e magnésio já que, como correm por baixo do solo, carregam resíduos de rochas que sofreram erosão. "Mas, quando chove muito, as substâncias se diluem na água."

Nos climas tropicais úmidos, no entanto, a teoria se mostra inválida, como aponta o estudo. Os pesquisadores do Ipam analisaram amostras de água recolhidas ao longo de dois anos no igarapé 54 - afluente do rio Gurupi, que drena uma pequena bacia hidrográfica na Amazônia - e descobriram que, quanto mais forte a precipitação, maior a concentração de cálcio e magnésio no riacho.

Segundo Ricardo, a justificativa para o fenômeno é a seguinte: o solo amazônico é pobre em nutrientes que, entretanto, são encontrados na vegetação. Assim, quando folhas, flores e frutos caem das árvores, uma camada de material orgânico se acumula na superfície da terra. "Nos dias de chuva torrencial, os nutrientes são arrastados para dentro dos rios", conclui o cientista. "Por isso ocorre essa inversão de dados."

Os resultados do trabalho, publicados na revista Nature de 13 de abril, deixam claro a importância da vegetação para o equilíbrio dos ecossistemas tropicais. Ricardo afirma que, se a floresta amazônica continuar a ser devastada, a carência de tais nutrientes comprometerá toda a cadeia alimentar da região. "Essas substâncias não são necessárias somente para nutrir as árvores e fertilizar o solo, elas são essenciais na constituição da biomassa aquática."

Andressa Camargo
Ciência Hoje/RJ
24/05/01

 

 
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