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Um processo nada aleatório
Livro procura solucionar focos de controvérsia da teoria da evolução das espécies
Durante anos os cientistas tentaram decifrar um dos maiores mistérios da existência: a evolução da vida. A idéia de um Deus criador se viu ameaçada quando Charles Darwin (1809-1882) postulou pela primeira vez, em 1859, a teoria da evolução das espécies e a seleção natural -- a única até hoje capaz de explicar a origem dos seres vivos. Embora aceita em grandes linhas, alguns aspectos da teoria despertam controvérsia até hoje.
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Pintura representa Charles Darwin (1809-1882) e sua esposa Emma | | |
Solucionar esses focos de dúvida é preocupação central do biólogo Richard Dawkins, autor de O relojoeiro cego, livro recém-lançado no Brasil. Segundo ele afirma no prefácio da obra, sua tarefa é "destruir o mito sofregamente acalentado de que o darwinismo é uma teoria do acaso".
Imagine um cego catador de entulhos que começa a amontoar passo a passo peças encontradas aleatoriamente. Ele constrói aos poucos algo novo a partir desses elementos, sem sequer fazer uma projeção sobre sua obra. O resultado é um lindo relógio com todas as peças e funções. Assim é a seleção natural para Dawkins. Ele se utiliza dessa metáfora para mostrar que não há planejamento de conseqüências nesse fenômeno, mas os resultados vivos impressionam ao ponto de parecerem ter sido designados.
Dawkins explica que a evolução ocorre porque em gerações sucessivas há ligeiras diferenças no desenvolvimento embrionário devido a mutações genéticas. Essas transformações não ocorrem por acaso e sim por um processo cumulativo, em que cada mudança no processo evolutivo é muito simples em relação à mudança anterior. "Não se trata de coincidência", escreve. "O produto final de uma geração de seleção é o ponto de partida para a próxima geração de seleção."
Para explicar melhor o processo cumulativo, Dawkins, que também é programador, cria softwares que simulam o desenvolvimento, reprodução e evolução das espécies. No caso do computador, a seleção é artificial, pois é o biólogo quem escolhe as espécies que vão procriar. Na seleção natural real, o aspecto determinante é a sobrevivência.
Em função desse fator, Dawkins propõe várias hipóteses para o surgimento da visão, da audição, dos pulmões etc. No caso das asas, por exemplo, a explicação é que muitos animais pulam de galho em galho e às vezes caem no chão -- queda que pode ser fatal. Se abas de pele crescessem a partir das articulações, aumentaria a capacidade de salto, o que evitaria quedas e mortes. Um indivíduo que tenha nascido com essa mutação teria maior chance de sobreviver e passar adiante essa característica. A partir daí, a asa pode ter evoluído.
Exemplos como esse tornam a leitura do livro agradável. A preocupação especial de Dawkins com o leitor faz de O relojoeiro cego uma obra quase didática -- e excelente fonte de pesquisa -- com a assinatura de um dos maiores teóricos da evolução.
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O relojoeiro cego - a teoria da evolução contra o desígnio divino Richard Dawkins (tradução: Laura Teixeira Motta) São Paulo, 2001, Companhia das Letras 462 páginas, R$ 37,00 |
Sarita Coelho Ciência Hoje on-line 31/10/01 |