Está em qualquer livro de biologia: o código genético de todos os seres vivos é formado por quatro letras (A, C, G e T). Porém, cientistas do Instituto de Pesquisa Física e Química, no Japão, conseguiram introduzir mais duas letras -- S e Y -- no alfabeto que compõe o genoma. A adição de novas unidades ao DNA permite sintetizar proteínas que contêm aminoácidos artificiais. Tais proteínas podem ter aplicações na medicina e na indústria. O estudo, publicado em fevereiro na revista Nature Biotechnology, foi realizado com extratos celulares, ou seja, na ausência de células íntegras.

"Nossos resultados podem facilitar a detecção, purificação e análise estrutural de proteínas", diz à CH on-line Ichiro Hirao, principal autor da pesquisa. Segundo o geneticista Francisco Salzano, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o trabalho dos cientistas japoneses representa um importante avanço dos métodos para modificação de proteínas, em desenvolvimento há mais de uma década. "Esse passo abre perspectivas para a biomedicina e a ciência dos materiais", comenta Salzano.
As unidades formadoras do DNA (os nucleotídeos) contêm uma base nitrogenada, açúcar e fosfato. O que diferencia os quatro tipos de nucleotídeos existentes é a base nitrogenada, que pode ser adenina (A), citosina (C), guanina (G) e timina (T). As seqüências de bases do DNA permitem fabricar todas as proteínas que compõem nosso corpo.
O DNA serve de molde para a produção de RNA mensageiros, que contêm seqüências de nucleotídeos para a síntese de proteínas. Trechos específicos dessas moléculas são reconhecidos por um outro tipo de RNA -- os RNA transportadores, que também têm a função de garantir que os aminoácidos sejam posicionados na proteína em formação na ordem correta.
Os cientistas japoneses introduziram uma base S no trecho do DNA que comanda a síntese da proteína humana Ras, importante para interações celulares. Os RNA mensageiros produzidos a partir da seqüência modificada apresentavam uma base Y. A informação genética desses RNA mensageiros permitiu a síntese de uma proteína Ras que continha um aminoácido artificial (a cloro-tirosina). Para que isso fosse possível, os pesquisadores fabricaram RNA transportadores especiais que garantiam que o aminoácido artificial se encaixasse na posição desejada da proteína.
A síntese da proteína Ras com uma cloro-tirosina não tem aplicações diretas, mas prova que a complexa metodologia desenvolvida pelos cientistas japoneses funciona. "Essa é uma técnica fundamental para o futuro", diz Hirao. "Gosto muito do discurso de Arthur Kornberg, ganhador de um Nobel em 1956 por seu trabalho sobre a síntese de DNA. Ele dizia que a necessidade raramente é a mãe da invenção: invenções legítimas produzem necessidades." Não custa lembrar, no entanto, que todo experimento deve se realizar dentro de padrões éticos.
Fernanda Marques
Ciência Hoje on-line
11/04/02