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 NOTÍCIAS :: GENÉTICA

Clones mal-sucedidos têm cromossomos X anormalmente inativos
Estudo sugere que maior obstáculo da clonagem não é de ordem técnica, e sim biológica

Vacas clonadas que morreram logo após o nascimento apresentam cromossomos X anormalmente inativos, segundo estudo realizado por brasileiros e norte-americanos. Os resultados, publicados em 28 de maio no site da revista Nature Genetics, sugerem que ainda é muito cedo para pensar na possibilidade de reproduzir seres humanos por clonagem.

A bezerra Vitória, desenvolvida por cientistas da Embrapa, foi o primeiro animal clonado brasileiro, nascido em março de 2001 (foto: Claudio Melo / Embrapa)

Na reprodução normal, óvulo e espermatozóide se unem para formar o zigoto, célula que dá origem a um indivíduo com características genéticas particulares. Já na clonagem, o núcleo de um zigoto ou de um óvulo é removido e, no seu lugar, coloca-se o núcleo de uma célula adulta (já diferenciada). Assim, um animal geneticamente idêntico ao doador da célula adulta será produzido.

Os cientistas estudaram quatro vacas clonadas que sobreviveram após o nascimento e seis que morreram logo depois de nascer. A atividade de dez genes localizados nos cromossomos X foi medida em cada animal. Nove dos genes estudados estavam inativos nos dois cromossomos X de todos os clones mortos. Porém, os genes dos clones vivos funcionavam de modo idêntico ao observado em animais gerados por reprodução normal.

Na reprodução normal, um zigoto que vai dar origem a um mamífero do sexo feminino apresenta dois cromossomos X, ambos ativos. Ao longo do desenvolvimento embrionário, um deles sofre um processo de inativação, mas o outro permanece ativo. "Isso acontece porque a seqüência de nucleotídeos não é o único tipo de informação presente no genoma", explica Lygia Pereira, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) e co-autora do trabalho. "O DNA exibe marcas, chamadas epigenéticas, que controlam a atividade de genes, mas sua natureza bioquímica ainda é pouco conhecida."

Na clonagem, por outro lado, uma vaca é produzida a partir de uma célula adulta, que já exibe um cromossomo X inativo. Logo, durante o desenvolvimento de um clone de vaca, o cromossomo X inativo deve ser reativado e, em seguida, desativado novamente. "Quando uma célula diferenciada volta a funcionar como a de um embrião, algumas marcas epigenéticas de seu genoma são apagadas, enquanto outras não sofrem alterações", diz Pereira. "Quando essas marcas não são corretamente reprogramadas, os clones não sobrevivem."

Os cientistas comprovaram também que o tipo de célula que doa seu núcleo na clonagem é fundamental para o sucesso do processo. Eles avaliaram três tipos celulares: células da granulosa (localizadas ao redor do óvulo), da pele e das glândulas mamárias. As células doadoras que produziram o maior número de clones vivos foram as da granulosa.

"Nossos resultados indicam que a maior dificuldade da clonagem não é técnica, mas biológica: os mamíferos não foram programados para se reproduzir por meio de clonagem", afirma Pereira. "Um problema biológico é bem mais difícil de ser resolvido que um técnico. Por isso, pensar na reprodução humana por clonagem é hoje um absurdo."

Fernanda Marques
Ciência Hoje on-line
13/06/02

 

 
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