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 NOTÍCIAS :: GENÉTICA

Célula do coração atua como 'marca-passo biológico' 
Inserção de gene aumenta freqüência cardíaca, pelo menos em porquinhos-da-índia

Marca-passos estão com os dias contados: técnicas de terapia gênica podem tornar desnecessário o uso desses aparelhos eletrônicos implantados cirurgicamente no coração de pacientes para assegurar um ritmo adequado de batimentos cardíacos. Pesquisadores inseriram em células do coração de porquinhos-da-índia genes que permitiram aumentar sua freqüência cardíaca e, assim, atuaram como 'marca-passos biológicos ou induzidos'. O estudo, coordenado pelo professor Eduardo Marbán, da Universidade Johns Hopkins (EUA), foi publicado em 12 de setembro na revista Nature. Apesar dos ensaios bem-sucedidos com animais, a técnica só deve ser testada em humanos dentro de alguns anos.

No músculo cardíaco, certas células estimulam as outras a se contraírem, o que garante o bombeamento do sangue. Se, por algum motivo, essas células que controlam a atividade do coração morrem ou param de funcionar, é preciso implantar um marca-passo. O aparelho eletrônico passa, então, a regular os batimentos cardíacos.

No período embrionário, todas as células cardíacas conseguem se contrair sem receberem estímulos. Após o nascimento, porém, apenas algumas mantêm essa capacidade. As outras passam a apresentar em suas membranas canais que regulam a entrada e a saída de potássio (K+): a diferença de concentração desse íon dentro e fora das células as impede de estimular a contração do músculo cardíaco por conta própria.

A equipe de Marbán concluiu que, se os canais de potássio fossem bloqueados, as células cardíacas recuperariam a habilidade de se contraírem sem receberem estímulos -- o que restabeleceria o funcionamento adequado do coração de pacientes que precisam de marca-passo. Assim, os cientistas recorreram à terapia gênica para inserir no DNA dessas células um gene que comanda a formação de um canal de potássio defeituoso.

Os pesquisadores colocaram esse gene dentro de vírus inócuos e, em seguida, injetaram os microrganismos em porquinhos-da-índia. Menos de uma semana depois, os vírus invadiram algumas células cardíacas, que começaram a sintetizar canais de potássio alterados. "Não observamos efeitos colaterais nos animais, mas só os estudamos por três dias após a transferência do gene", diz Marbán à CH on-line. Com canais de potássio defeituosos, as células voltaram a se contrair por conta própria e aumentaram a freqüência cardíaca dos animais.

Ao contrário do que ocorre com os aparelhos eletrônicos, a implantação do 'marca-passo biológico' desenvolvido pela equipe de Marbán não exige intervenção cirúrgica e, portanto, diminui o risco de infecções. "Crianças que já precisam de um marca-passo tradicional mas ainda são pequenas para colocá-lo e pacientes com endocardite, que recebem recomendação para não usar o aparelho, seriam os principais beneficiados por futuras aplicações terapêuticas de nosso estudo", diz Marbán.

 

Fernanda Marques
Ciência Hoje on-line
30/09/02

 

 
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