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O cromossomo Y é transmitido por meio do espermatozóide paterno apenas para filhos homens. Já o DNA mitocondrial -- situado no citoplasma, dentro de organelas celulares denominadas mitocôndrias -- é transmitido por meio do óvulo materno para filhos e filhas. Tanto o cromossomo Y como o DNA mitocondrial não trocam genes com outros segmentos genômicos, ou seja, não se recombinam. Isso significa que eles são transmitidos às gerações seguintes em blocos de genes denominados haplótipos, que facilitam o traçado de patrilinhagens e matrilinhagens e a reconstrução da história genética de um povo.



A lingüística é usada para formular hipóteses sobre o passado de ameríndios e descobrir como viviam seus falantes em "As línguas indígenas e a pré-história", de Denny Moore, do Museu Paraense Emílio Goeldi, e Luciana Storto, do Museu Nacional/UFRJ. Em "As origens africanas dos escravos brasileiros", de Herbert S. Klein, da Universidade de Colúmbia, EUA, o leitor encontra uma análise do tráfico de escravos para o Brasil e descobre, entre outras coisas, que Angola e Congo foram as mais importantes fontes de escravos para nosso país. Já os quatro últimos artigos, de Ricardo Ventura Santos, Jair de Souza Ramos e Marcos Chor Maio, discutem sob o ponto de vista socioantropológico a existência de raças humanas.

 

 NOTÍCIAS :: GENÉTICA

Livro explica surgimento do Homo brasilis
Geneticistas, historiadores, lingüistas e antropólogos vêem formação de povo brasileiro

Quem é o brasileiro de hoje e como surgiu? Essa é a principal questão de Homo brasilis, livro organizado por Sérgio Pena, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A obra reúne artigos de geneticistas, historiadores, lingüistas e antropólogos que procuram, sob óticas diferentes, reconstituir aspectos da história da formação da população brasileira.

A publicação é o registro de um simpósio organizado por ocasião dos 500 anos de descobrimento do Brasil, durante o 47o Congresso da Sociedade Brasileira de Genética, em Águas de Lindóia (SP). Os artigos consideram que o Brasil representa um verdadeiro ponto de encontro: aqui convivem ameríndios autóctones -- povos oriundos da Ásia -- , colonizadores europeus -- sobretudo portugueses -- e populações negras trazidas da África pelo tráfico de escravos. Da confluência desses povos iniciou-se um processo de mistura gênica que nos levou ao brasileiro atual.

No primeiro texto, "Retrato molecular do Brasil, versão 2001", Pena usa a genética molecular e a genética de populações para reconstituir e compreender esse processo. Com base na idéia de que linhagens genealógicas ameríndias, européias e africanas contribuíram para a composição da população brasileira, Pena e sua equipe mapearam na população branca do Brasil atual as distribuições dessas linhagens. Amostras de DNA da população do Norte, Nordeste, Sudeste e Sul do país foram estudadas com dois marcadores de linhagens genealógicas: o cromossomo Y para estabelecer linhagens paternas (patrilinhagens) e o DNA mitocondrial para estabelecer linhagens maternas (matrilinhagens).

A análise das variações do cromossomo Y e do DNA mitocondrial revelou que a imensa maioria das patrilinhagens é européia, enquanto cerca de 60% das matrilinhagens é ameríndia ou africana. Isso significa que a contribuição européia se fez basicamente por meio de homens, e a ameríndia e a africana, sobretudo por meio de mulheres.

A tela A redenção de Can (1895), de Modesto Brocos y Gomes, representa a miscigenação entre brancos e negros no Brasil

Em "Linhagens mitocondriais e do cromossomo Y em Portugal", António Amorim, da Universidade do Porto, Portugal, analisa a história das linhagens masculinas e femininas na ex-metrópole. Uma análise genética dos povos que participaram da ocupação das Américas está nos artigos "A história do povoamento pré-colombiano das Américas e o cromossomo Y humano", de Fabrício Santos e Eduardo Tarazona-Santos, e "Linhagens mitocondriais em populações nativas das Américas", de Vania Prado e Juliana Alves-Silva, da UFMG. Outros artigos caracterizam a história da formação de nossa população sob aspectos lingüísticos e socioantropológicos.

Mas será possível conhecer de forma exata o brasileiro atual? A reunião de artigos de diferentes áreas já mostra que a resposta não vem de uma só fonte. Ao fim da leitura, o leitor não deve esperar uma definição rígida e sintética do Homo brasilis. Os artigos simplesmente pretendem, segundo Pena, "descrever e celebrar a diversidade".

Homo brasilis - aspectos genéticos, lingüísticos, históricos
e socioantropológicos da formação do povo brasileiro

Sérgio D. J. Pena (org.)
Ribeirão Preto, 2002, Editora Funpec
192 páginas

Elisa Martins
Ciência Hoje on-line
15/10/02

 

 
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