e malária. Com 1,08 milhão de vítimas por ano, a malária é a endemia que mais mata no mundo, segundo dados do TDR. O continente mais atingido é a África, com 90% dos casos. As crianças são as maiores afetadas: uma morte a cada 30 segundos na África. No Brasil, foram registrados em 2000 mais de 615 mil novos casos (99,7% na Amazônia) e 240 mortes.
A malária é causada por protozoários do gênero Plasmodium e transmitida por mosquitos do gênero Anopheles. Seu tratamento se tornou mais difícil devido ao surgimento de variedades do protozoário e do mosquito resistentes a drogas e inseticidas. Em outubro, foi anunciado o seqüenciamento do DNA do parasita que causa a forma mais letal da doença e do mosquito que mais freqüentemente a transmite.
Os 5279 genes do Plasmodium falciparum foram decifrados por um consórcio internacional de cientistas, em estudo publicado em 3 de outubro na revista Nature. Já foram identificados genes ligados à resistência a drogas, ao ciclo de vida e à agressividade do parasita, dados essenciais para o desenvolvimento de remédios e vacinas: mais de 65 genes foram detectados como alvos potenciais para drogas.
Já o seqüenciamento genético do Anopheles gambiae foi coordenado pelo TDR e publicado em 4 de outubro na revista Science. Dos cerca de 14 mil genes do mosquito, já foram identificados aqueles que têm papel na transmissão do parasita, na resistência a inseticidas e na capacidade olfativa, o que permitirá criar novos inseticidas e repelentes.
Conhecer a genética do vetor possibilita ainda a criação de um mosquito transgênico incapaz de transmitir a doença. "O Plasmodium tem parte do seu ciclo de vida dentro do mosquito, onde se liga a um peptídeo específico. A idéia é criar mosquitos que tenham esses peptídeos saturados, o que impediria a ligação do parasita", explica Morel. "Mas ainda há problemas éticos e legais a serem resolvidos, além da dúvida sobre como introduzir o novo mosquito na natureza."
A necessidade de parcerias :
No Brasil, a malária é causada sobretudo pelo Plasmodium vivax (bem menos letal que o P. falciparum), cujos genes já foram decifrados em estudo da Universidade de São Paulo. O principal vetor é o Anopheles darlingi, que tem muitas semelhanças genéticas com o A. gambiae. Já há planos para seqüenciar os genes do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue e febre amarela.
Os dados obtidos no seqüenciamento genético do P. falciparum e do A. gambiae estão disponíveis na internet, o que garante que qualquer pesquisador possa trabalhar com elas. "Pela primeira vez temos informação genética da vítima (homem), do parasita e do vetor de uma doença", comemora Morel.
O TDR treinou, nos últimos dois anos, mais de 100 cientistas da América Latina, África e Ásia. Ensinou a eles como manipular o genoma e identificar vulnerabilidades a partir dele. Segundo Morel, países em desenvolvimento como Brasil e Cingapura já têm a tecnologia necessária para desenvolver soluções contra as doenças. O que falta é financiamento. Portanto, é importante que haja colaboração de empresas públicas e privadas e parceria entre países ricos e em desenvolvimento. "Doenças não reconhecem fronteiras, por isso são essenciais alianças e parcerias", disse Luis Salicrup, do Instituto Nacional de Saúde dos EUA (NIH), na abertura do Simpósio.