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A doença de Chagas, descrita pela primeira vez em 1909 pelo médico brasileiro Carlos Chagas, só ocorre na América Latina, onde causa 21 mil mortes por ano. São cem mil novos casos e 6 mil mortes por ano só no Brasil. Causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, a doença é transmitida por insetos da sub-família Triatominae (conhecidos como barbeiros), por transfusão de sangue ou da mãe infectada para o feto. A doença também infecta animais silvestres e domésticos.

Os portadores transmitem a doença por toda a vida. Por não apresentar sintomas nos primeiros meses ou anos de infecção, na maioria das vezes, quando detectada, a doença já causou danos irreversíveis. O parasita invade os órgãos e afeta principalmente coração e trato digestivo.

Hoje a doença é transmitida principalmente por transfusão de sangue, mas espécies de triatomíneos silvestres vêm se aproximando do domicílio humano. Isso significa que a endemia pode se expandir geograficamente. Estudos genéticos do T. cruzi e de várias espécies de barbeiros estão em andamento. O objetivo é identificar alvos para novas drogas, elucidar a patogênese e os fatores de risco e descobrir novas ferramentas para diagnóstico e controle da doença.

 

 NOTÍCIAS :: GENÉTICA

Genômica: o novo rumo no combate a doenças infecciosas
Seqüenciamento do DNA de parasitas e vetores pode gerar soluções inovadoras

Decifrar o código genético de parasitas e vetores pode ser a solução para um grande problema dos países tropicais: as doenças infecto-contagiosas. O constante aparecimento de novos casos e epidemias dessas doenças deve-se a vários fatores, como a grande diversidade da fauna (inclusive de microrganismos e animais que podem ser usados como transmissores e reservatórios de doenças), clima favorável à reprodução de insetos vetores, aumento da urbanização e saneamento básico ineficaz. "O maior problema é que não é fácil obter financiamento para pesquisa de doenças que atingem apenas países pobres: não dá lucro", diz Carlos Morel, diretor do programa especial de pesquisa em doenças tropicais da Organização Mundial da Saúde (TDR/OMS).

A malária é transmitida por mosquitos do gênero Anopheles. Acima, o Anopheles aquasalis (foto: Genilton Vieira/Fiocruz)

"A melhor perspectiva para a criação de novas drogas e estratégias de combate a doenças parasitárias é mapear e entender o código genético dos parasitas", disse Morel no Simpósio Panamericano sobre Abordagens Moleculares em Doenças Humanas. Realizado entre 22 e 25 de outubro na Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, o evento discutiu novas formas de combate a doenças tropicais.

Já foi iniciado o mapeamento genético de organismos envolvidos em pelo menos duas doenças parasitárias endêmicas no Brasil: doença de Chagas e malária. Com 1,08 milhão de vítimas por ano, a malária é a endemia que mais mata no mundo, segundo dados do TDR. O continente mais atingido é a África, com 90% dos casos. As crianças são as maiores afetadas: uma morte a cada 30 segundos na África. No Brasil, foram registrados em 2000 mais de 615 mil novos casos (99,7% na Amazônia) e 240 mortes.

A malária é causada por protozoários do gênero Plasmodium e transmitida por mosquitos do gênero Anopheles. Seu tratamento se tornou mais difícil devido ao surgimento de variedades do protozoário e do mosquito resistentes a drogas e inseticidas. Em outubro, foi anunciado o seqüenciamento do DNA do parasita que causa a forma mais letal da doença e do mosquito que mais freqüentemente a transmite.

Os 5279 genes do Plasmodium falciparum foram decifrados por um consórcio internacional de cientistas, em estudo publicado em 3 de outubro na revista Nature. Já foram identificados genes ligados à resistência a drogas, ao ciclo de vida e à agressividade do parasita, dados essenciais para o desenvolvimento de remédios e vacinas: mais de 65 genes foram detectados como alvos potenciais para drogas.

Já o seqüenciamento genético do Anopheles gambiae foi coordenado pelo TDR e publicado em 4 de outubro na revista Science. Dos cerca de 14 mil genes do mosquito, já foram identificados aqueles que têm papel na transmissão do parasita, na resistência a inseticidas e na capacidade olfativa, o que permitirá criar novos inseticidas e repelentes.

Conhecer a genética do vetor possibilita ainda a criação de um mosquito transgênico incapaz de transmitir a doença. "O Plasmodium tem parte do seu ciclo de vida dentro do mosquito, onde se liga a um peptídeo específico. A idéia é criar mosquitos que tenham esses peptídeos saturados, o que impediria a ligação do parasita", explica Morel. "Mas ainda há problemas éticos e legais a serem resolvidos, além da dúvida sobre como introduzir o novo mosquito na natureza."

A necessidade de parcerias :

No Brasil, a malária é causada sobretudo pelo Plasmodium vivax (bem menos letal que o P. falciparum), cujos genes já foram decifrados em estudo da Universidade de São Paulo. O principal vetor é o Anopheles darlingi, que tem muitas semelhanças genéticas com o A. gambiae. Já há planos para seqüenciar os genes do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue e febre amarela.

Os dados obtidos no seqüenciamento genético do P. falciparum e do A. gambiae estão disponíveis na internet, o que garante que qualquer pesquisador possa trabalhar com elas. "Pela primeira vez temos informação genética da vítima (homem), do parasita e do vetor de uma doença", comemora Morel.

O TDR treinou, nos últimos dois anos, mais de 100 cientistas da América Latina, África e Ásia. Ensinou a eles como manipular o genoma e identificar vulnerabilidades a partir dele. Segundo Morel, países em desenvolvimento como Brasil e Cingapura já têm a tecnologia necessária para desenvolver soluções contra as doenças. O que falta é financiamento. Portanto, é importante que haja colaboração de empresas públicas e privadas e parceria entre países ricos e em desenvolvimento. "Doenças não reconhecem fronteiras, por isso são essenciais alianças e parcerias", disse Luis Salicrup, do Instituto Nacional de Saúde dos EUA (NIH), na abertura do Simpósio.

Adriana Melo
Ciência Hoje on-line
13/11/02

 

 
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