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 NOTÍCIAS :: GALERIA

Livro resgata arte cerâmica de índios Tapajó
Artefatos de possível uso ritual sugerem intercâmbio cultural entre tribos amazônicas

A coleção tapajônica do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP) possui mais de 8 mil peças entre cachimbos, estatuetas e vasilhas deixadas pelos índios Tapajó, que habitavam a região de Santarém (PA). Durante dois anos a arqueóloga Denise Gomes analisou e classificou 1184 vasilhas do acervo, das quais 163 foram apresentadas no livro Cerâmica arqueológica da Amazônia.

Vasilha representa jacaretinga sobre cuja cauda se observa uma figura antropomorfa sentada ornamentada na cabeça e orelhas. Incisões simétricas laterais representam cobras (fotos: Cláudio Wakahara)

Não se sabe onde ou quando as peças foram coletadas, pois foram adquiridas de acervos particulares. Datações realizadas por Gomes apontam que a fabricação ocorreu entre 900 e 1200 d.C., período em que a cultura Tapajó se desenvolveu de forma acentuada. Especula-se que os artefatos tivessem uso ritual. "Muitas das vasilhas não atenderiam aos requisitos básicos para o uso funcional", esclarece a arqueóloga, que chama atenção para a ausência de marcas de uso.

Para a arqueóloga, a variabilidade observada nas formas, técnicas decorativas e tecnologias de fabricação das vasilhas refuta a hipótese de uma cultura homogênea no grupo Tapajó, defendida por alguns autores. "Acredito que a cerâmica seria copiada por outras comunidades da área, não necessariamente pertencentes ao grupo Tapajó", observa. Atualmente Gomes testa a hipótese da existência de uma rede de trocas ou de influências culturais que teria integrado tribos localizadas em zonas de potencial ecológico distinto -- as mais ricas situadas em várzeas, as mais pobres em áreas de terra firme.

As vasilhas tapajós apresentam diversas técnicas decorativas. Para saber mais sobre cada uma delas e conferir algumas peças cerâmicas da coleção MAE-USP, clique nas imagens abaixo.

Vasos antropomorfos
As vasilhas em forma humana são raras na cerâmica Tapajó. A arqueóloga destaca as figuras masculinas, que possivelmente representam chefes e xamãs. As peças apresentam homens em posição sentada segurando chocalhos e ornamentados com pulseiras, braceletes e adornos de cabeça. As vasilhas com representações antropomórficas provavelmente eram empregadas no armazenamento de bebida, mas teriam sido usadas também como urnas funerárias. Os chefes representados são interpretados por arqueólogos como caciques, que governariam unidades tribais com poder para julgar e punir.

Vasos zoomorfos
As representações de animais são comuns na cerâmica Tapajó. As representações mais recorrentes incluem jacaré, cobra, urubu-rei, cachorro do mato e onça. Também são encontrados tatu, tartaruga e macaco. A representação zoomórfica estaria relacionada a aspectos da cosmologia Tapajó, o que aponta para o uso ritualístico das peças. A vasilha acima representa um jacaré que traz na boca uma figura zooantropomórfica com cauda, sobre a qual está fixado um urubu-rei. Sobre a boca do réptil observa-se uma criança engatinhando, e sobre sua cabeça, duas rãs. Ao lado da cabeça do jacaré existem duas cabeças antropomorfas adornadas com uma espécie de grinalda.

Decoração
As peças observadas no livro incluem garrafas, tigelas, taças, pratos e vasos. A decoração dos artefatos pode ser acromática ou contar com pinturas sobre a cerâmica. As peças apresentam técnicas como modelagem a mão livre, entalhe, incisão (que produz efeito de baixo-relevo), excisão (remoção de partes da cerâmica) e aplicação de apêndices modelados. O polimento era uma técnica comum. Nas peças pintadas são observadas linhas retilíneas e curvilíneas nas cores preto, branco e vermelho. Também ocorre a representação de triângulos e círculos. Na imagem acima observa-se o fragmento de uma tigela pintada com motivos geométricos.

Apêndices
Os artefatos dos índios Tapajó apresentam uma série de apêndices, partes avulsas modeladas em cerâmica anexadas ao corpo da peça (acima, um apêndice em forma de onça). A profusão de apêndices atrapalharia o manuseio dos artefatos, o que indica que possivelmente tiveram propósito ritualístico além do emprego prático no armazenamento de alimentos e líquidos. Além disso, muitas das vasilhas não se prestariam ao uso funcional por serem demasiadamente pequenas ou frágeis. A indicação mais contundente do uso ritualístico das vasilhas, porém, é o fato de não serem observadas marcas de uso, comuns em outras peças arqueológicas.

Cerâmica arqueológica da Amazônia:
vasilhas da coleção tapajônica MAE-USP

Denise Maria Cavalcante Gomes
São Paulo, 2002, Edusp
360 páginas

Raquel Aguiar
Ciência Hoje on-line
22/05/02

 

 
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