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 NOTÍCIAS :: GALERIA

Cultura Ticuna digitalizada
CD-Rom traz acervo sobre índios amazônicos reunido em cinco anos de pesquisa

 Durante quatro décadas, o alemão Curt Nimuendaju (1883-1945) se embrenhou na Amazônia para pesquisar mais de 40 povos. Entre 1941 e 1942, o etnólogo recolheu máscaras, vestimentas e instrumentos usados na Festa da Moça -- ritual de puberdade e cerimônia mais importante da etnia Ticuna, a mais populosa entre os índios da região amazônica. Hoje, esse material se encontra no Museu Paraense Emílio Goeldi (Belém), cujo acervo etnográfico tem cerca de 14 mil peças.

Tela de abertura do CD-Rom recém-lançado pelo Museu Goeldi

Mas não é preciso ir ao museu para conhecer o trabalho de Nimuendaju. Durante cinco anos, esses objetos foram identificados, catalogados e classificados por um projeto coordenado pela antropóloga Priscila Faulhaber. O resultado está reunido no CD-Rom multimídia Magüta Arü Inü. Jogo de memória: pensamento Magüta. Esse trabalho recebeu este ano o prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), na categoria Inventário de Acervos de Pesquisa.

Nele é possível assistir a vídeos de um ritual da puberdade e ver fotos dos objetos catalogados. Junto a isso, uma animação do movimento das constelações que regem o cotidiano dos índios, uma galeria de cantos e um inventário do vocabulário da etnia tentam colocar o leitor em sintonia com a cultura Ticuna. Todo o conteúdo é acompanhado por textos explicativos elaborados por especialistas.

Segundo Priscila, o CD-Rom é tanto um instrumento de divulgação e pesquisa permanente. "Somente unindo recursos tão variados é possível representar a complexidade do pensamento mítico e do universo Ticuna."

O projeto contou com a participação de seis representantes dos índios, que avaliaram as peças, explicaram a simbologia e sua correlação com os mitos. "É preciso estar atento ao sentido dado aos artefatos pelos Ticuna", explica a antropóloga. Eles ainda ajudaram na confecção do CD-Rom. "É importante que eles participem do processo como produtores de conhecimento, não só como informantes, mas também como autores."

O resultado final agrada bastante: o CD-Rom é esteticamente bem elaborado e tem navegação fácil. A reunião de imagens, textos e vídeos cumpre o objetivo de tornar o rico conteúdo mais envolvente. Estudiosos e interessados em geral aprenderão bastante com essa experiência antropológica.

Para saber mais sobre o CD-Rom, clique nas imagens abaixo:

 

Mulher tece um tipiti (cesto de palha para espremer mandioca). Na sociedade Ticuna, cabe à mulher influenciar positivamente o convívio social e estar preparada para lidar com os perigos que possam surgir. Os homens também passam por um ritual de iniciação, mas a Festa da Moça é a cerimônia Ticuna mais importante.

Foto: Priscila Faulhaber

Pano ritual feito de entrecasca de árvore. Preso a uma armação circular, é usado como escudo durante o ritual de puberdade Ticuna. Os símbolos representam um treinamento em que crianças de cinco a 10 anos aprendem a atirar flechas em um tronco de árvore.

Foto: Miguel Chikaoka

A jovem Tueguna, do clã Ngo’ü (arara vermelha), durante seu ritual de puberdade realizado na comunidade Enepü. A Festa da Moça é um ritual de transição de menina para mulher. Nesse momento de ambigüidade, ela representa perigo para o grupo, pois estaria passando por experiências extraordinárias, como o contato com seres sobrenaturais. Por isso, Tuenguna tapa os olhos, pois é proibida de olhar e ser olhada.

Foto: Priscila Faulhaber

Para os Ticuna, o Universo tem a forma de um grande globo cujo interior se divide em três planos: o plano superior corresponde à zona do fogo, onde está o Sol; no plano inferior está o mar primigênio, lugar frio que regula os fluxos de água e temperatura. No centro desses dois pólos flutuam os diversos mundos, que estão contidos dentro de uma estrutura de forma cônica. O eixo do Universo é um canal transparente que conduz a luz solar a cada um dos mundos.

Imagem: Luis Angel Ramos Del Aguila

A sociedade Ticuna se divide em duas metades: os clãs ’pena’ e os ’sem pena’. Só é permitido o casamento entre membros de clãs de metades opostas, uma vez que pessoas pertencentes à mesma metade seriam parentes. Durante as festas, os rostos dos participantes são pintados de acordo com o nome dos clãs. Acima, duas moças com pinturas de onça e arara respectivamente.

Foto: Priscila Faulhaber

Na Festa da Moça, os mascarados representam o perigo para a moça e para todo o grupo. As máscaras geralmente se referem a espécies animais, vegetais e seres mitológicos. Ao dançar com os mascarados, a moça é restituída ao convívio social, o que significa que ela e toda a sociedade estão fora de perigo.   

Magüta Arü Inü. Jogo de memória: pensamento Magüta
Edição do Museu Paraense Emílio Goeldi (2003)
O CD-Rom pode ser obtido mediante permuta.
Interessados devem entrar em contato com
Doralice Romero por e-mail ou pelo número (91) 224-3374  

Rafael Barifouse
Ciência Hoje on-line
12/11/03 

 

 
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