Imagine um refrescante banho de mar. De repente, a temperatura da água começa a subir ao longo dos meses e, em pouco tempo, esquenta de tal modo que a sensação é de estar dentro de um caldeirão borbulhante. Foi isso o que aconteceu com algas, peixes, pingüins, golfinhos, lobos-marinhos e leões-marinhos em 1997, quando sentiram de perto os efeitos do último El Niño -- o mais intenso já registrado.
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Cerca de 1800 pingüins da espécie Spheniscus humboldti vivem na Reserva de Punta San Juan, que possui uma extensão de 54hectares cercados por um muro de 1,2 km (foto: Milena Roca) | | |
Esses animais são personagens de um importante ecossistema localizado na costa sul do Peru. Eles estão acostumados com a água fria durante todo o ano, propiciada pela corrente de Humboldt, que usualmente banha a região. Nos anos em que ocorre o fenômeno El Niño, a temperatura superficial do mar sofre um aumento repentino, que traz sérias ameaças à fauna local. Em 1997,o fenômeno aqueceu em mais de 10o C as águas que banham a costa do Peru e reduziu drasticamente o número de espécies da região.
Dizer que as espécies se recuperam dos efeitos do último El Niño seria um exagero. É o que garante Larissa de Oliveira, do Laboratório de Biologia Evolutiva e Conservação de Vertebrados da Universidade de São Paulo (USP). Ela integra o grupo que estuda os lobos-marinhos da Reserva de Punta San Juan, um dos locais mais atingidos pelo problema.
"O fenômeno acontece a cada quatro ou seis anos e atua como fator natural de seleção de várias espécies. Não há muito que fazer por espécies como o lobo-marinho, por exemplo, a não ser protegê-los dos impactos causados pelo homem (caça, poluição etc.), pois eles enfrentam os efeitos do El Niño ha mais de 400 anos e parecem adaptados ao fenômeno."
Punta San Juan é reserva ecológica desde 1903. Oitenta anos depois, um grupo de pesquisadores -- ao qual Larissa juntou-se em 1997 -- começou a trabalhar pela preservação dos animais da região. Para isso, biólogos e veterinários do mundo inteiro trabalham sob a coordenação das biólogas peruanas Milena Roca e Patrícia Majluf no monitoramento diário do comportamento das espécies da região: época de reprodução, período de gestação e amamentação, época de dispersão e, sobretudo, os efeitos do El Niño. "É um grande laboratório a céu aberto", resume Majluf.
Para saber mais sobre algumas das espécies encontradas em Punta San Juan, clique nas imagens abaixo:
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Lobos-marinhos Existem cerca de 500 lobos-marinhos sul-americanos (Arctocephalus australis) na Reserva de Punta San Juan. Essa é uma das espécies mais afetadas pelo fenômeno El Niño: segundo Milena Roca e Patrícia Majluf, houve uma baixa de mais de 70% das populações de lobos-marinhos no Peru em 1997. Com o aquecimento das águas, as anchovetas -- principal alimento desses animais -- migram para águas mais frias e profundas. "Dias após o nascimento dos filhotes, as mães vão para o mar em busca de alimento e retornam para terra para amamentar suas crias", conta Larissa. "No entanto, em períodos de El Niño, as fêmeas são obrigadas a passar mais tempo caçando. Com isso, muitos filhotes podem morrer de inanição -- e eventualmente até a mãe, devido ao grande esforço na busca do pescado."
Foto: Gino Munemura |
Trinta-réis incas Cerca de mil indivíduos da espécie Larosterna inca, conhecida como trinta-réis inca, vivem em Punta San Juan. No mês de fevereiro, eles migram para a costa norte peruana para fazer seus ninhos e descansar. Nessa época, as rochas se enchem de aves jovens e adultas. Um comportamento típico da ave jovem é esperar passivamente que seus pais lhe tragam alimento. Para isso, ela dá bicadas no bico de seus genitores e ’pede’ a comida.
Foto: Milena Roca |
Pingüins Pingüins são os animais mais beneficiados pelo trabalho realizado pela equipe de Milena Roca. Embora haja quase 2 mil indivíduos da espécie Spheniscus humboldti na Reserva de Punta San Juan, ela ainda está em perigo de extinção devido a sua captura intencional, à destruição de hábitats costeiros e à depredação dos estoques pesqueiros pela indústria peruana. Para garantir sua preservação, eles costumam colocar seus ovos em ninhos nas paredes dos acantilados.
Foto: Milena Roca |
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Atobás peruanos Na Reserva de Punta San Juan, vivem cerca de 300 atobás peruanos (Sula variegata). Essas aves se reproduzem entre os meses de outubro e novembro. Nessa época, formam colônias com muitos ninhos, que eventualmente se juntam e formam áreas planas ou pendentes nas puntas e ilhas. Alimentam-se de peixes, sobretudo anchovetas (Engraulis ringens), peixes-rei (Odonthestes regia) e agujillas (Scomberesox saurus).
Foto: Milena Roca |
Acantilados O litoral da Reserva de Punta San Juan é todo recortado por acantilados -- penhascos escarpados que variam entre 30 a 400 metros de altura. A erosão causada pelas ondas e pelo vento levou à formação de cavernas de diferentes tamanhos em sua base, nas quais os pingüins colocam seus ovos. Já a parte de cima dos acantilados se projeta dentro no mar e forma uma ponta (punta, em espanhol), que dá o nome à reserva.
Foto: Milena Roca |
Leões-marinhos A população de leões-marinhos-do-sul (Otaria byronia) no Peru sofreu uma mortalidade de quase 80% durante o El Niño de 1997. Dos 144.000 animais, restaram apenas 28.000 e, desde então, a população tenta voltar a crescer. Na Reserva de Punta San Juan, há 1200 indivíduos dessa espécie. Esses animais costumam perseguir barcos pesqueiros e romper suas redes para retirar os peixes. Por isso, muitas vezes sofrem agressões dos pescadores.
Foto: Gino Munemura |