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No auto do bumbá era representada a seguinte história: um fazendeiro rico dá um boi de presente a sua filha preferida, mas um vaqueiro mata o animal para dar a língua do bovino para sua mulher comer. Com medo de ser punido, o vaqueiro, ajudado por um médico, padre ou pajé, ressuscita o boi. Na Amazônia, o auto sofreu modificações sucessivas e incorporou as lendas do local.

 

 NOTÍCIAS :: GALERIA

Nos bastidores do Festival de Parintins 
Ensaio sobre preparativos para festa folclórica ganha prêmio de fotografia etnográfica

Um ensaio sobre os bastidores do Festival Folclórico de Parintins recebeu em junho o prêmio Pierre Verger de fotografia, concedido pela Associação Brasileira de Antropologia. As fotos mostram a produção dos artistas nos galpões onde as fantasias e alegorias da festa são feitas. O trabalho premiado foi realizado pelo fotógrafo e historiador da arte Andreas Valentin, durante seu mestrado em Ciência da Arte na Universidade Federal Fluminense (UFF).

O Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas, promove uma celebração de dança, música e encenação dramática e recria lendas da Amazônia para representar a rivalidade entre dois bois - Caprichoso (esq.) e Garantido (dir.)

A festa ocorre todos os anos no fim de junho e traz cerca de 40 mil espectadores à pequena cidade de Parintins. O espetáculo encena um combate entre dois bois-bumbás: o vermelho Garantido e o azul Caprichoso. Os rivais competem na arena do bumbódromo e recriam mitos da Amazônia com elaboradas fantasias e alegorias, músicas e danças. "A rivalidade entre os bois provoca um permanente impulso de superação através da arte", explica Valentin.

A tradição do boi-bumbá foi trazida para a Amazônia por imigrantes nordestinos no início do século 20. Naquela época, os bois se apresentavam na casa das pessoas. Havia uma disputa por território, pois eles recebiam uma quantia por cada encenação. Após alguns anos, a encenação passou a ser nas ruas e as brigas entre Caprichoso e Garantido ficaram mais violentas. Em 1966, as apresentações foram transferidas para a quadra da igreja e os bois passaram a seguir um regulamento e a concorrer a um troféu.

A antiga festa popular se transformou em um grande espetáculo, com alegorias e fantasias elaboradas que remetem ao desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. A produção das peças recorre tanto aos materiais típicos da região -- como juta e palha ‐ quanto a complexos efeitos especiais e outros artifícios tecnológicos.

No ensaio fotográfico premiado, Andreas Valentin registrou o trabalho desses artistas nos galpões em que trabalham -- os quartéis-generais ou simplesmente QGs. "São lugares guardados a sete chaves", conta Valentin. No QG, o ambiente é escuro e as pessoas precisam se identificar para entrar. Às vezes, artistas que trabalham no mesmo espaço não sabem o que o colega ao lado está fazendo.

Oferecido a cada dois anos, o prêmio Pierre Verger contempla fotos que tenham qualidade estética e interesse antropológico. O ensaio de Valentin é baseado em sua tese de mestrado, que analisa a rivalidade dos bois de Parintins a partir dos conceitos de conflito e competição definidos pelo sociólogo alemão Georg Simmel (1858-1918), do dualismo existente na estrutura social de certas tribos amazônicas estudadas pelo antropólogo brasileiro Roberto da Matta (1936-), além das relações de poder em pequenas comunidades apresentadas pelo sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1997).

Confira abaixo algumas das 14 fotos que integram o ensaio premiado. Clique nas imagens para ampliá-las e saber mais detalhes sobre os bastidores da festa.

A maioria dos artistas de Parintins é autodidata. A cultura indígena e os elementos da floresta são representados no festival folclórico.

Os QGs funcionam em antigas fábricas de beneficiamento de juta. O trabalho é feito com muito cuidado. Somente as pessoas que trabalham no galpão podem ver as peças.

A preparação das fantasias, alegorias e adereços exibidos no Festival Folclórico de Parintins recorre ao uso de materiais típicos da região, como a juta.

As cores representantes dos bois são predominantes no desfile. Até mesmo a cidade é dividida em vermelho e azul. Sua própria geografia reflete essa rivalidade: a parte oeste da cidade, rio acima, é o território de Garantido; na parte leste, rio abaixo, concentram-se os partidários de Caprichoso.

Muitas crianças trabalham nos QGs com seus parentes. "Com seus dedos pequeninos e intuição infantil, elas são importantes na confecção das peças", afirma Andreas Valentin.

As fantasias começam a ser produzidas em março, logo após o carnaval. Na confecção, os artistas utilizam centenas de penas e sementes e observam os mínimos detalhes.


Para saber mais sobre Parintins, o Festival e o fotógrafo
Andreas Valentin, acesse
www.pontodevista.com

Eliana Pegorim
Ciência Hoje On-line
02/08/04

 

 
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