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Duas visões da ciência
Debate reúne José Leite Lopes e Cesar Lattes, dois dos maiores físicos brasileiros
Em 16 de fevereiro último, o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) reuniu dois dos maiores físicos brasileiros vivos para um debate: Cesar Lattes e José Leite Lopes. Lattes é conhecido como um dos descobridores do méson pi, e Leite Lopes, renomado por sua teoria que apontou para uma unificação das forças eletromagnéticas e das forças fracas. "O Brasil tem uma dívida enorme com ambos", disse o também físico Alfredo Marques, que mediou a discussão. "Se não fosse por eles, a Reforma Universitária estaria em um nível muito inferior ao de hoje." O debate foi parte da programação da III Escola do CBPF, curso de verão que reúne físicos de todo o país.
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José Leite Lopes (esq.) e Cesar Lattes (dir.) | | |
Lattes e Leite Lopes discutiram a história da ciência no Brasil, lembraram fatos importantes do passado do país e fizeram várias críticas à forma como a ciência é conduzida aqui. Mencionaram, por exemplo, que a primeira universidade brasileira foi fundada para dar um título de Doutor Honoris Causa ao rei da Bélgica. Os físicos evocaram também momentos importantes do ensino superior no país, como a fundação da Universidade de São Paulo (USP), quando o matemático Teodoro Ramos foi à Europa selecionar professores. Entre eles, veio aquele que seria responsável pela formação da escola de física do país: o russo Gleb Wataghin. Lattes e Leite Lopes ressaltaram também a importância do físico brasileiro Mario Schenberg, de quem foram colegas.
Os físicos relembraram momentos importantes de suas carreiras, como a descoberta do méson pi por Cesar Lattes ou a temporada de Leite Lopes na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, quando trabalhou com o físico Wolfgang Pauli. Fora da área da física, eles destacaram a atuação de pioneiros como Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, e a importância do Instituto Oswaldo Cruz para a ciência brasileira. Leite Lopes lamentou muito a falta de investimento em pesquisa que caracteriza a ciência no Brasil hoje, mas se mostrou otimista. "Vamos atravessar essa fase", acredita.
Quando questionados sobre o futuro da física, eles criticaram aqueles que prevêem o fim da ciência, inclusive alguns ganhadores do prêmio Nobel. "São os profetinhas", ironizou Cesar Lattes. "Toda vez que se descobre uma partícula elementar, ela mostra que contém um mundo", disse Leite Lopes. Diante de uma audiência formada em grande parte por mestrandos e doutorandos, Lattes questionou a necessidade da pós-graduação. "Faz-se isso para 'subir a escadinha', mas o que importa são as descobertas - e não tem havido descobertas." Lopes lembrou ainda questões não esclarecidas na astrofísica ou na física de partículas - como a existência da supersimetria. "Ainda há muito a se fazer."
Renata Ramalho Ciência Hoje/RJ 19/02/01 |