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 NOTÍCIAS :: FÍSICA

Por um novo ensino da física

Autor defende popularização das ciências e critica 'ditadura dos livros didáticos'

Não é raro que a física seja vista com receio por alguns alunos. Por trás disso, estaria a falta de dinamismo e criatividade que caracteriza o ensino da disciplina. A crítica é feita pelo físico Marcos Cesar Danhoni Neves, professor da Universidade Estadual de Maringá. Em 1999, ele lançou Memórias do invisível -- uma reflexão sobre a história no ensino de física e a ética da ciência. O livro propõe uma nova filosofia de ensino, que desperte nas pessoas, sobretudo nos jovens, a paixão pela ciência. Em julho, o autor divulgou a obra durante o 13º Congresso de Leitura do Brasil, realizado na Universidade Estadual de Campinas.

Ilustração da capa de Memórias do Invisível (detalhe do quadro Guernica, de Pablo Picasso, sobreposto a estudo de trajetórias balísticas de Leonardo da Vinci)


Com Memórias do invisível, Neves pretende popularizar a física, contextualizá-la para o público e desfazer o mito de que seria uma disciplina difícil. Ele apresenta de forma leve nos doze capítulos do livro alguns dos principais conceitos dessa ciência (como a noção de força), a história de seu desenvolvimento e inventos criados a partir deles, como os relógios mecânicos.

Da concepção de universo dos gregos antigos às questões mais polêmicas da cosmologia moderna, o autor parte da história da física para mostrar que os livros atuais "não transmitem ao leitor uma idéia adequada da história da ciência". Segundo Neves, o sistema de ensino vigente negligencia essa história, apresenta as ciências de modo rígido e linear, populariza fórmulas mágicas e priva os alunos do contexto em que o conhecimento foi produzido. Ele propõe que se rompa com a "ditadura dos livros didáticos".

Para o autor, o ensino ideal seria aquele que demonstrasse como as inovações científicas são formuladas pouco a pouco. Seu livro reproduz descrições de experimentos de cientistas da antigüidade. O exemplo de Nicolau Copérnico, que descobriu que a Terra é esférica, também é apresentado. Para chegar a suas conclusões, o astrônomo polonês seguiu a tradição de seus antepassados (Aristóteles, Posidônio, Erastóstenes de Alexandria, por exemplo) e se valeu de argumentos 'físicos' e filosóficos.

Memórias do Invisível aborda ainda tema da ética científica. Marcos Neves discute o que chama de "a face cruel da ciência", manifesta, por exemplo, nas aplicações bélicas de conceitos físicos (como as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki) ou nos acidentes nucleares de Chernobyl e Goiânia. "Resolvi publicar essa parte porque eram minhas antigas reflexões sobre a ética ausente na pesquisa em física", justifica o autor, que é membro do conselho permanente de ética em pesquisa envolvendo seres humanos de sua universidade.

Esse é o sexto livro de Marcos Neves, fruto de quinze anos de pesquisas. O autor defende a interdisciplinaridade como elemento fundamental para estimular o pensamento dos jovens e o entendimento da física. "Nossas academias devem transpor seus muros e ver que existe um mundo contingencial lá fora, ávido por conhecimento, democracia, educação e cidadania."

Memórias do invisível - uma reflexão sobre a
história no ensino de física e a ética da ciência

Marcos Cesar Danhoni Neves
Editora LCV, Maringá, 1999
267 páginas; R$ 10,00

Aline Pereira
Ciência Hoje on-line
03/08/01

 

 
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