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 NOTÍCIAS :: FÍSICA

O fim do mundo segundo Marcelo Gleiser
Livro de físico brasileiro mostra como ciência e religião enxergam o apocalipse

No ano 570 d.C, Roma corria sério risco: a peste bubônica surgira no Oeste e se espalhava para o Leste, e invasões germânicas assustavam os moradores do norte da península italiana. O céu mandava recados: eclipses e cometas eram evidências de que o fim estava próximo. O papa Gregório I anunciou a iminência do apocalipse -- estava escrito nos céus. Um milênio e meio depois, em 1998, o mundo se viu assombrado com a possibilidade de um meteoro acabar com a vida na Terra. A Nasa deu o alerta, e dois filmes que exploravam o tema fizeram grande sucesso.

 

Detalhe da capa de O fim da Terra e do Céu (afresco Os condenados, de Luca Signorelli)


Contrariando as expectativas criadas pela religião e pela ciência, o mundo ainda não acabou. Além do fracasso das previsões, outra semelhança entre os dois casos chama atenção: em ambos o céu era o mensageiro do fim. A forma com que as religiões encaravam -- e encaram -- os fenômenos celestes e a influência dessa visão sobre o estudo científico são o tema de O fim da Terra e do Céu - o apocalipse na ciência e na religião, novo livro do físico brasileiro Marcelo Gleiser.

O céu sempre foi visto pelas religiões como uma amostra do humor dos deuses. Se nenhum evento fora do comum ocorre, bom sinal; se um cometa surge, um eclipse apaga o Sol ou uma 'estrela' cai, algo está errado -- e é essa a forma como Deus se comunica. A relação entre divino e celeste remonta pelo menos a 2000 a.C, na civilização babilônia, e se reflete nos dois textos apocalípticos mais importantes do mundo ocidental: o Livro de Daniel, do judaísmo, e o Apocalipse de São João, do cristianismo. Eles descrevem um Juízo Final em que o Sol fica negro e as estrelas despencam de um céu cheio de relâmpagos e trovões ensurdecedores -- afinal, esse é um dia em que o humor de Deus estará especialmente sensível.

Ilustração representa o impacto do asteróide que
teria provocado a extinção dos dinossauros

Mas a preocupação com o fim do mundo não é exclusividade de religiosos -- o estudo dos cometas é um exemplo da ligação íntima da análise racional dos corpos celestes com a perspectiva do Apocalipse. Prova disso é que, mesmo após a inclusão dos cometas na lei de gravitação universal, dois dos maiores cientistas da história -- Newton e Halley -- se apavoraram com a possibilidade da queda de um desses objetos na Terra. Disse Halley: "Que Deus nos proteja de um choque ou contato com esses enormes corpos celestes ... caso contrário, essa belíssima ordem das coisas será completamente destruída." O Fim continuava próximo.

Hoje se sabe que o fim não está tão próximo. Quando o Sol ficar insuportavelmente quente (daqui a 1 bilhão de anos), a humanidade talvez já tenha tecnologia para providenciar uma mudança de casa. A possibilidade de um meteoro ou cometa acabar com a vida na Terra é pequena, mas não custa desenvolver um sistema de interceptação eficaz. Dá-se um jeito.

Marcelo Gleiser confirma em O fim da Terra e do Céu a fama de bom escritor. É notável sua capacidade de descrever complicadas teorias físicas -- o fim das estrelas, do sistema solar, do universo -- mantendo pé firme em referências históricas e filosóficas. Além de instrutivo, é ótima leitura. E uma boa sugestão para passar o tempo enquanto o mundo não acaba.

O fim da Terra e do Céu - o
apocalipse na ciência e na religião

Marcelo Gleiser
Companhia das Letras, São Paulo, 2001
368 páginas - R$ 32,50

Tiago Lethbridge
Ciência Hoje on-line
10/09/01

 

 
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