Mas a preocupação com o fim do mundo não é exclusividade de religiosos -- o estudo dos cometas é um exemplo da ligação íntima da análise racional dos corpos celestes com a perspectiva do Apocalipse. Prova disso é que, mesmo após a inclusão dos cometas na lei de gravitação universal, dois dos maiores cientistas da história -- Newton e Halley -- se apavoraram com a possibilidade da queda de um desses objetos na Terra. Disse Halley: "Que Deus nos proteja de um choque ou contato com esses enormes corpos celestes ... caso contrário, essa belíssima ordem das coisas será completamente destruída." O Fim continuava próximo.
Hoje se sabe que o fim não está tão próximo. Quando o Sol ficar insuportavelmente quente (daqui a 1 bilhão de anos), a humanidade talvez já tenha tecnologia para providenciar uma mudança de casa. A possibilidade de um meteoro ou cometa acabar com a vida na Terra é pequena, mas não custa desenvolver um sistema de interceptação eficaz. Dá-se um jeito.
Marcelo Gleiser confirma em O fim da Terra e do Céu a fama de bom escritor. É notável sua capacidade de descrever complicadas teorias físicas -- o fim das estrelas, do sistema solar, do universo -- mantendo pé firme em referências históricas e filosóficas. Além de instrutivo, é ótima leitura. E uma boa sugestão para passar o tempo enquanto o mundo não acaba.