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 NOTÍCIAS :: FÍSICA

Cem anos do 'navegador italiano'
Enrico Fermi realilzou 1a reação em cadeia auto-sustentada a partir da fissão nuclear

"O navegador italiano acabou de chegar ao Novo Mundo". Esta mensagem, enviada ao governante da maior potência do planeta na época, mudou a história. Mas, ao contrário do que se pode supor, não tinha como destinatário o rei da Espanha, Fernando de Aragão -- e não se referia à chegada de Colombo à América. O texto, em código, comunicava o êxito da primeira reação em cadeia auto-sutentada a partir da fissão nuclear. A mensagem era para Franklin Roosevelt, e o navegador italiano era Enrico Fermi -- um dos maiores físicos do século 20, que completaria 100 anos em 29 de setembro.

Fermi nasceu em Roma em 1901. Filho de ferroviário, demonstrou desde cedo aptidão para a matemática e a física. Em 22, concluiu seu doutorado em física pela Universidade de Pisa e, dois anos depois, já era professor da Universidade de Florença. Na Universidade de Roma, demonstrou que os núcleos de quase todos elementos sofrem transformações quando bombardeados por nêutrons. Descobriu ainda que nêutrons desacelerados teriam maior chance de atingir o núcleo bombardeado, o que representou um salto enorme na pesquisa atômica.

Em 38, obteve permissão de Mussolini para receber o Nobel de Física na Suécia, e não voltou mais à Itália. Foi com a família para os EUA e ocupou a cadeira de física da Universidade de Columbia. A descoberta da fissão nuclear do urânio por físicos alemães, em 39, alarmou Fermi, que discutiu com o dinamarquês Niels Bohr como seria uma reação em cadeia a partir da fissão do núcleo do urânio. Segundo a equação de Einstein (E=mc2), o resultado da reação seria a transformação de parte da massa do urânio numa imensa quantidade de energia; uma bomba baseada nessa técnica seria um perigo nas mãos de Hitler.

Ele escreveu, com outros cientistas, a famosa carta a Roosevelt, assinada por Einstein, que alertava para os perigos da bomba atômica. Roosevelt não deu muita importância à carta, e só em 42, um ano após a entrada dos EUA na guerra, resolveu criar o projeto Manhattan -- que desenvolveria a bomba americana. Fermi liderou um dos principais grupos do projeto, responsável por produzir uma reação nuclear em cadeia auto-sustentada.

A experiência foi realizada com êxito em 2 de dezembro de 42 no campo de vôlei da Universidade de Chicago (se algo desse errado, parte da cidade sumiria do mapa). Foi o último grande passo para a construção da bomba, que explodiu pela primeira vez na base de Alamogordo, Novo México, em 16 de julho de 45, três semanas antes do ataque a Hiroshima e Nagasaki.

Fermi se naturalizou americano em 44, e dois anos depois foi convidado a lecionar na Universidade de Chicago, onde continuou a estudar as propriedades das partículas nucleares até a morte, em 54. Hoje, o mais potente acelerador de partículas do mundo tem seu nome (Fermilab), bem como uma partícula sub-atômica (férmion), o elemento químico de número atômico 100 (férmio) e uma unidade de comprimento (1 fermi = 10-15 m). Justas homenagens ao navegador que trouxe a ciência ao Novo Mundo da energia atômica.

 

Tiago Lethbridge
Ciência Hoje on-line
28/09/01

 

 
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