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 NOTÍCIAS :: FÍSICA

Em busca da bomba atômica de Hitler
Romance revê controverso papel de Werner Heisenberg no programa nuclear alemão

Mais de cinqüenta anos após a rendição japonesa a bordo do USS Missouri, a história da Segunda Guerra Mundial ainda está longe de ser escrita por completo: dezenas de livros lançados a cada ano revisitam antigas questões, e até criam novas -- mesmo a sexualidade de Hitler já foi posta em dúvida.

A tarefa de rever a história da guerra não é, no entanto, exclusiva de historiadores. Prova disso é o lançamento do romance Em busca de Klingsor, do escritor mexicano Jorge Volpi, que tem como pano de fundo a pesquisa atômica do regime de Adolf Hitler -- e o controverso papel que o físico Werner Heisenberg, criador do Princípio da Incerteza, desempenhou nela.

Em busca de Klingsor narra a história do físico americano Francis Bacon, que, após trabalhar por dois anos no Instituto de Estudos Avançados de Princeton -- que abrigou o exilado Albert Einstein --, é convocado pelo governo de seu país a fazer parte da equipe que investigaria o projeto nuclear alemão.

Com o fim da guerra, Bacon permanece na Alemanha para analisar o que é dito no tribunal de Nuremberg, que julgou os líderes nazistas. Ele ouve em um dos depoimentos que todas as pesquisas científicas da Alemanha passavam pelo crivo de um homem: Klingsor. A partir desse relato, descobrir quem é Klingsor se torna a missão -- e obsessão -- de Bacon.

No inicio de sua caçada por Klingsor, Francis Bacon conhece o outro personagem fundamental do romance -- e também seu narrador --, o misterioso matemático Gustav Links, que ajuda Bacon em sua busca. Os dois partem (com a namorada de Bacon, Irene, estranhamente interessada por suas pesquisas) atrás dos cientistas que permaneceram na Alemanha durante a guerra, e que possam saber quem é Klingsor.

Bacon e Links entrevistam alguns dos titãs da física do século 20: Max Planck, o austríaco Erwin Schrödinger, o dinamarquês Niels Bohr e Werner Heisenberg. O último, que comandou o projeto atômico alemão, é elemento central da narrativa. A figura ambígua de Heisenberg é um convite à especulação: ele apoiava o regime de Hitler? Sua intenção era realmente fabricar uma bomba nuclear? Por que ele permaneceu na Alemanha, mesmo depois de todos seus colegas terem se exilado? Seria ele Klingsor?

A história do programa nuclear nazista foi retomada nos últimos dez anos por uma série de livros, entre eles algumas biografias de Heisenberg (foto). O resultado de tanta pesquisa pode ser resumido em uma (irônica) palavra: incerteza. Quanto mais se estuda o assunto, mais polarizada fica a discussão entre defensores e detratores do físico alemão.

Em busca de Klingsor ajuda a situar o leitor nessa revisão histórica -- Volpi também dá sua versão do famoso encontro de Bohr e Heisenberg em 1941, tema da magnífica peça Copenhagen, de Michael Frayn. Apesar da ênfase dada aos fatos históricos, o livro não é pesado. Pelo contrário: também pode (e deve) ser lido como uma boa história de suspense, em que o mistério sobre a identidade de Klingsor persiste até a última página. Ou mais.

Em busca de Klingsor
Jorge Volpi (trad.: Sérgio Molina)
São Paulo, 2001, Companhia das Letras
480 páginas; R$ 38,50

Tiago Lethbridge
Ciência Hoje on-line
14/12/01

 

 
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