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 NOTÍCIAS :: FÍSICA

'Modelo da caminhada do turista' permite otimizar problemas
Algoritmo de físicos da USP descreve padrão em situações aparentemente aleatórias

Parece improvável que haja qualquer relação entre situações tão distintas como as vivenciadas por turistas mochileiros, pássaros migradores ou mesmo internautas navegando pela rede. Embora não pareçam obedecer a nenhum padrão, essas situações apresentam um determinismo que resulta na ocorrência sistemática de ciclos viciosos.

É possível viajar pelo Brasil fazendo sempre o trajeto mais curto entre duas capitais e evitando a repetição de cidades já visitadas? Um modelo matemático criado na USP talvez traga a resposta a problemas como esse

Um modelo matemático capaz de descrever o padrão cíclico em situações aparentemente aleatórias como as descritas acima foi elaborado por Gilson Lima, Alexandre Martinez e Osame Kinouchi, físicos da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto. O objetivo dos pesquisadores é aplicar à resolução desses problemas as chamadas regras de otimização local para, assim, encontrar a melhor maneira de transpor os ciclos viciosos e reduzir ao máximo custos, imprevistos etc. O estudo foi publicado na Physical Review Letters em junho de 2001 e posteriormente comentado na revista Nature.

Imagine um turista mochileiro em excursão pelo Brasil, que pretende partir para a capital mais próxima de onde estiver. É importante que ele visite o máximo de capitais e que o trajeto entre duas cidades seja o menor possível, independentemente da rota final. Em um momento, o turista vê-se diante de um impasse: a capital mais próxima é também a última que visitou. Formou-se um ciclo vicioso. Nosso turista -- um ser pensante -- é capaz de evitar esses ciclos, pois leva em conta todas as últimas M capitais visitadas. Porém, em situações similares, é fatal que se caia em ciclos viciosos, independentemente do valor de M.

Os casos estudados pelos pesquisadores podem ser classificados como sistemas com dinâmica determinística. Porém, o modelo resulta em funções matemáticas que definem sistemas aleatórios (leis de potência). "A estatística obtida para a distribuição dos períodos nos ciclos viciosos é praticamente uma lei de potência", conta Martinez. "Esse fato é bastante surpreendente e precisa ser melhor explicado."

Chamada de 'modelo da caminhada do turista', o algoritmo elaborado pelos físicos aponta a periodicidade dos ciclos viciosos, a distribuição dos períodos e a probabilidade de eles ocorrerem. "O problema é que toda otimização determinística leva a ciclos", pondera Martinez. Os pesquisadores estudam agora uma possibilidade de quebra dos ciclos.

"Observamos que em um pasto fornido ao acaso de montes de alimentação, 75% das ovelhas se dirigem ao monte mais próximo e 25% a um outro monte qualquer. Isso significa que as ovelhas quebraram naturalmente o ciclo. Conseguimos fazer com que o modelo previsse essa quebra de modo natural, na proporção observada experimentalmente", comemora. É preciso saber se foi uma coincidência ou se o modelo realmente é capaz de prever fenômenos como esses.

Martinez ainda não tem idéia dos benefícios que o novo algoritmo possa trazer. "O modelo é como os personagens do dramaturgo italiano Pirandello, que estão em busca de uma história depois que seu autor recusou-se a continuá-la. Estamos em busca de um problema que possa ser resolvido somente pelo modelo", brinca.

Paula Americano
Ciência Hoje on-line
03/04/02

 

 
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