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Desde a segunda revolução industrial, período em que se formaram grandes empresas e foram criadas as funções burocráticas, a classe média começou a crescer e a formar um importante segmento da sociedade economicamente ativa. No caso brasileiro, o governo autoritário e desenvolvimentista de Getúlio Vargas teria sido o período em que se assistiu ao crescimento dessa classe, que depois se fortaleceria durante os governos de Juscelino Kubitschek e dos primeiros anos do ciclo da ditadura militar.

 

 NOTÍCIAS :: ECONOMIA 

A classe média no fundo do poço
Pesquisador avalia situação econômica desse segmento social nos últimos 20 anos

Ao fim de cada mês os trabalhadores da classe média têm a impressão de que o salário encolheu. Contas atrasadas, dívidas no banco, carrinhos de supermercado mais vazios. Esses são sintomas de um problema que se arrasta há mais de duas décadas: a estagnação da economia brasileira.

Para confirmar que a insuficiência dos salários não é ilusória ou passageira, o economista Waldir Quadros, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), vem reunindo informações sobre a situação econômica da classe média desde 1979 e conclui: "o momento é de desespero e desilusão".

Sua afirmação se baseia na comparação entre dados do início da década de 80 e do início dos anos 2000, que ele pretende reunir em livro. "Desde que iniciei minhas pesquisas, nunca observei uma situação tão crítica nesse segmento da sociedade", alerta. "O desemprego, que atingia quase exclusivamente a massa dos trabalhadores, se alastrou para a classe média, o que provoca o 'rebaixamento social' de muitas famílias que viviam em boas condições econômicas."

A relação entre renda e escolaridade ilustra bem esse cenário. O curso superior, outrora visto como garantia de ascensão social, deixou de der um indicativo seguro para o padrão de vida. "De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a média da renda dos indivíduos com curso superior completo ou incompleto caiu 25% em 21 anos de crise."

Em 1981, os 6,1% de pessoas que declararam renda e tinham terceiro grau de instrução recebiam, em média, um salário mensal de R$ 2.921, em valores atualizados. Já em 2002, eram 10,8% os declarantes com curso superior, com média salarial de R$ 2.203.

Quadros divide a classe média em três níveis, com base em dados do IBGE: a 'alta' classe média seria formada por aqueles com renda familiar superior a R$ 5 mil, a 'média' classe média, entre R$ 2,5 mil e R$ 5 mil, e a 'baixa', de R$ 1 mil a R$ 2,5 mil.

No entanto, ele ressalta que sua definição não se restringe ao nível de renda. "Pertencem à classe média indivíduos que ocupam cargos intermediários entre as categorias clássicas de divisão de trabalho -- proprietários e operariado. Esse recorte inclui desde o office boy de uma empresa aos executivos assalariados."

A classe média vem se constituindo no Brasil desde o governo Vargas. Esse grupo tem se destacado como um segmento social capaz de provocar mudanças nos rumos da política nacional. "Sua atuação em momentos importantes, como na 'preparação' do golpe militar, na distensão da ditadura e no impeachment de Fernando Collor demonstram isso", analisa.

Ao lembrar que esses períodos corresponderam a crises econômicas que afetaram diretamente essa classe, ele sugere que a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva representou o esgotamento das esperanças em governos conservadores, como os de Collor e Fernando Henrique Cardoso.

"Agora observamos uma grande decepção com o governo Lula, que pode fortalecer posições de direita na política brasileira", constata Quadros. "As taxas de desemprego continuam subindo, o rendimento caindo, e não há perspectivas de queda significativa dos juros e da carga tributária."

Julio Lobato
Ciência Hoje On-line
01/06/04

 

 
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