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Os índios Tupinamba ficavam surpresos ao ver o trabalho dos homens brancos para levar o arabutan: um deles perguntou ao aventureiro francês Jean de Léry por que vinham buscar lenha tão longe para se aquecer. Diante da resposta de que o pau-brasil não era usado na Europa para se queimar e sim para "tingir roupas, cordões de algodão, plumas e outras coisas", o índio perguntou por que precisavam de tanta quantidade de madeira. O francês explicou-lhe pacientemente que no seu país havia diversos negociantes que compravam toda a carga do navio e acumulavam assim muitas riquezas na troca de mercadorias. O índio quis saber então para quem deixavam essas riquezas quando morriam. O europeu respondeu que seus filhos, se tivessem, ou os parentes mais próximos poderiam herdá-las. Ao ouvir isso, o Tupinamba declarou:
Agora sei que sois grandes loucos; pois é preciso trabalhar tanto em passar o mar, onde sofreis tantos incômodos, como nos dizeis, quando aqui chegais, para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem? A terra, que vos nutriu, não é também suficiente para nutri-los? Temos pais, mães e filhos, aos quais amamos e prezamos; mas como estamos certos de que, depois de nossa morte, a terra, que nos nutriu, também os nutrirá, por isso descansamos sem o mínimo cuidado.
Diante disso, Léry escreveu em seu relato de viagem, que data de 1557: "Eis aqui sumariamente o discurso, que ouvi da boca de um pobre selvagem americano... Esta nação, que reputamos bárbara, zomba desdenhosamente daqueles que com perigo de vida passam os mares para ir buscar o pau-brasil a fim de enriquecer-se..." (LÉRY, s.d.) | |
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NOTÍCIAS :: ECOLOGIA E MEIO AMBIENTE |
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A floresta e o homem: antagonismos
Livro relata milhares de anos de admiração e medo, afinidade e hostilidade
Há milhares de anos, o homem surgiu da floresta, e desde então, vem estabelecendo com ela uma relação antagônica de admiração e medo, de hostilidade e afinidade, de devastação e conservação. As histórias e conseqüências dessa vivência, baseada no amor e ódio, estão no livro A floresta e o homem, de Regina Machado Leão. Editada pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (Ipef), a obra foi preparada para a comemoração do último dia da árvore (21 de setembro).
Graças à floresta, o homem pôde enfrentar as glaciações, acendendo o fogo para cozinhar alimentos e se aquecer. Pôde também esculpir armas, ferramentas e outros pequenos utensílios. Aprendeu a construir moradias e navios que o levaram a encontrar outros homens em terras longínquas. Com o calor da madeira, modificou a forma de vários metais para construir outros utensílios. E com o tempo, deixou de encarar a floresta como adversária para identificá-la como produtora de bens e, mais tarde, protetora da vida.
A floresta também é símbolo de fé e reflexão e está por trás de mitos fundadores de diversas crenças. Sob o pé de uma figueira, Buda atingiu a iluminação; por causa de uma maçã da Árvore da Sabedoria, Adão e Eva foram expulsos dos Jardins do Éden. Foi também de troncos (os kuarup) cortados e encantados por Mavutsinim que surgiram os índios do Alto Xingú. Além disso, as árvores eram emblemas de diversos deuses gregos, e desde sempre a suavidade das florestas serviu para o lazer e a paz da mente e do corpo.
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O livro traça um panorama atual da situação das florestas no Brasil. Em 1998, a extensão do desmatamento bruto na Amazônia legal já havia atingido 532.000 km2 (superfície pouco inferior à da França) | | |
A história do Brasil também está intimamente ligada às árvores. Seu próprio nome vem de uma delas: o pau-brasil (Caesalpina echinata Lamb.). Chamada pelos índios de arabutan e utilizada na construção civil, naval e de móveis por ser dura, resistente e pesada, a árvore do pau-brasil também era derrubada pelos portugueses para a obtenção da brasilina, usada no tingimento de tecidos e na fabricação de tintas para a escrita. A extração do pau-brasil configurou o primeiro ciclo econômico do país e iniciou o conflito entre os colonizadores e os nativos (leia um trecho do livro).
Hoje, o Brasil não vive mais o ciclo do pau-brasil ou da borracha, e o mundo inteiro tem a necessidade de recuperar recursos naturais por meio do reflorestamento. Nesse ambiente, surgem novas ciências (como a engenharia florestal) e instituições (como o Ipef) que lutam para que "o patrimônio florestal continue indefinidamente gerando riquezas e benefícios para a humanidade".
A Floresta e o Homem Regina Machado Leão São Paulo, Edusp e Ipef, 448pp., R$ 70.
Pablo Pires Ferreira Ciência Hoje/RJ 23/10/00 |
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