As pequenas geleiras andinas, responsáveis pelo abastecimento de água da população durante períodos de baixa precipitação, podem desaparecer dentro de pouco tempo. A afirmação é do pesquisador Bernard Francou, do Instituto de Pesquisas para o Desenvolvimento (IRD, na sigla em francês). Desde o início dos anos 1990, Francou e sua equipe acompanham as geleiras de Chacaltaya, na Bolívia, e de Antizana, no Equador. Ambas têm menos de 1 quilômetro quadrado e contribuem para o abastecimento de várias cidades - inclusive as capitais La Paz e Quito. O estudo permite avaliar o impacto do aquecimento global, causado em grande parte pelo fenômeno El Niño, sobre as pequenas geleiras, que equivalem a 80% das geleiras dos Andes.
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Geleiras norte e sul de Chacaltaya (Bolívia), a 5275 metros do nível do mar (foto: Bernard Pouyaud - agosto 2000) | | |
Ao contrário das geleiras alpinas, que contam com um longo período de acumulação no inverno, as geleiras tropicais sofrem perda permanente de volume em sua metade inferior e tornam-se mais suscetíveis às instabilidades do clima. Por isso, elas têm sofrido o impacto da grande freqüência com que o El Niño tem ocorrido desde 1976. "Esse fenômeno acentua o derretimento das geleiras, sobretudo porque a atmosfera a 5.000 metros de altitude é mais quente durante os El Niño, e o regime de precipitação é mais irregular", explica Francou à CH on-line. Na última década, as geleiras estudadas perderam em média de 0,6 a 1,4 metros de água por ano.
Para avaliar o derretimento das geleiras nos anos anteriores ao início do estudo, a equipe do IRD se baseou em fotografias aéreas e terrestres e em pinturas e gravuras antigas. A partir dessa pesquisa, foi possível concluir que a superfície de Chacaltaya equivale hoje a apenas 10% da verificada em 1940. Já a diminuição da superfície de Antizana foi três vezes mais rápida entre 1993 e 1998 do que entre 1956 e 1993, embora o fenômeno La Niña tenha feito a geleira avançar mais de 30 metros entre 1999 e 2000. Francou afirma, no entanto, que "a tendência de avanço não deve inverter a observada nas últimas décadas". Ainda segundo ele, Chacaltaya terá desaparecido totalmente até 2011 se o clima se comportar como nas últimas duas décadas. Mesmo que as temperaturas sejam mais amenas, a geleira não durará mais que 15 anos.
O derretimento das geleiras andinas não deve causar nenhum impacto sobre o clima global, pois seu tamanho é pequeno. Para a população local, no entanto, o desaparecimento trará graves conseqüências. "Sem as geleiras, a hidrologia será controlada somente pela precipitação, e sua irregularidade aumentará", afirma Francou. No caso de Chacaltaya, há ainda um impacto econômico: a montanha abriga a pista de ski mais alta do mundo, que atrai turistas de todo o planeta. No entanto, nos últimos 20 anos, a prática do esporte tem se tornado cada vez mais difícil.
Renata Ramalho
Ciência Hoje/RJ
21/05/01