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 NOTÍCIAS :: ECOLOGIA E MEIO AMBIENTE

Impacto de vazamento pode ser subestimado

Em um ano, resíduos de óleo causaram morte de 62% dos iguanas em ilha no Equador

Danos ecológicos causados por derramamentos de óleo podem ser maiores do que revela uma primeira análise. Segundo estudo publicado na Nature de 6 de junho, 62% dos iguanas marinhos da ilha de Santa Fé, no arquipélago de Galápagos (costa do Equador), morreram em decorrência do despejo no mar de três milhões de litros de óleo. O desastre não acarretou imediatamente a mortandade dos répteis: ela foi constatada no período de até um ano após o derramamento. A pesquisa serve de alerta para países que, como o Brasil, tiveram águas contaminadas por vazamentos considerados de baixo impacto.

62% dos iguanas marinhos (Amblyrhynchus cristatus) da ilha de Santa Fé morreram um ano após vazarem ali 3 milhões de litros de óleo. Na ilha de Genovesa, mais distante do desastre, a população permaneceu inalterada (foto: Heidi Snell/Nature)


O acidente que levou à morte dos iguanas ocorreu em janeiro de 2001, quando o navio Jessica, da Petroecuador, encalhou próximo à ilha de San Cristóbal -- vizinha àquela em que a mortandade foi verificada pela equipe de Martin Wikelski, biólogo da Universidade de Princeton (EUA). O combustível despejado foi disperso por correntezas, o que causou a morte imediata de poucos animais marinhos. No entanto, segundo Wikelski, os resíduos do óleo que chegaram à ilha de Santa Fé teriam matado bactérias do intestino dos iguanas marinhos. Esses répteis herbívoros, característicos das Ilhas Galápagos, dependem de microrganismos para digerir as algas marinhas das quais se alimentam.

Segundo o biólogo, os efeitos de contaminações consideradas de baixo impacto são raramente estudados. "É muito difícil avaliar os danos reais quando não se dispõe de dados anteriores ao acidente", disse Wikelski à CH On-line. A análise do impacto começa geralmente após o desastre. Sua equipe, porém, estudava desde 1987 os iguanas de Santa Fé e da ilha de Genovesa (também nas Galápagos). Eles puderam comparar dados obtidos antes e depois do acidente.

Em estudo prévio, os cientistas haviam descoberto que, antes de morrer, os iguanas marinhos apresentam no sangue altos níveis de corticosterona, hormônio relacionado ao estresse. A equipe havia testado o nível desse hormônio nos iguanas três dias antes do desastre. Ao repetir o teste dias depois, eles constataram que a concentração havia aumentado sensivelmente, o que os levou a suspeitar que os répteis estivessem prestes a morrer.

Os pesquisadores cogitaram a intoxicação dos iguanas ou das algas que lhes serviam de alimento, mas descartaram a hipótese porque nenhum animal marcado pela equipe morreu logo após o vazamento, e a quantidade de algas marinhas continuou estável. A equipe então concluiu que os resíduos de combustível teriam matado as bactérias responsáveis pela digestão dos iguanas.

Os pesquisadores esperam chamar a atenção para a tolerância com que são encarados acidentes de proporção considerada pequena (como o vazamento de Santa Fé, no qual a concentração máxima de óleo chegou a 44 partes por milhão). No Brasil, dois desastres com derramamento de óleo em 2000 despejaram mais de dois milhões de litros de combustível em águas brasileiras. Como mostra Wikelski e sua equipe, os danos podem ter sido maiores do que pensam os brasileiros.

Marina Ramalho
Ciência Hoje on-line
10/06/02

 

 
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