Realizar uma análise socioocupacional dos integrantes dos principais partidos da Câmara dos Deputados: esta é a proposta do livro Partidos, ideologia e composição social, do cientista político Leôncio Martins Rodrigues. O autor sustenta que as profissões de origem e os setores da sociedade de onde vieram os parlamentares são condicionantes do comportamento programático e ideológico das agremiações políticas.
Mais que isso, ao constatar que a bancada de cada partido possui características específicas e certa homogeneização, ele afirma que a política brasileira não é tão desorganizada como defendem alguns analistas e parte da opinião pública. A suposta fragilidade partidária não seria, pois, um "um risco para a consolidação do processo democrático".
Leôncio adotou como fonte de informação os arquivos da Câmara dos Deputados referentes à 51ª Legislatura (1998-2002) e a declaração de bens dos parlamentares entregues aos tribunais eleitorais. Foram escolhidos os seis partidos com maior representação na Câmara: dois de direita (PPB e PFL), dois de centro (PMDB e PSDB) e dois de esquerda (PDT e PT).
O autor verificou que as profissões que são "fontes de recrutamento partidário" não variam muito entre si. A maioria dos deputados são ou foram empresários, profissionais liberais, professores ou funcionários públicos. As outras fontes menos representativas são empregados não manuais do setor de serviços (como bancários), pastores e padres, comunicadores (radialistas, jornalistas, apresentadores de TV) e operários manuais e lavradores.
Essas profissões não se dividem desorganizada e aleatoriamente pelos partidos. Os empresários estão sobretudo no bloco de direita: 61% dos deputados pefelistas exerceram ou exercem essa ocupação; no PT, esse índice cai para 3%. Já os profissionais liberais são fortes em todas as bancadas -- 30% no PMDB, 52% no PDT. Os professores são numerosos na ala mais à esquerda -- 34% do PT --, e vão diminuindo conforme se caminha para a direita -- 16% do PSDB, 7% do PPB. No caso dos funcionários públicos há uma maior concentração nos partidos de centro e direita.
Leôncio afirma que, ao contrário das eleições para cargos executivos, "na luta por postos legislativos, os candidatos têm maior margem na defesa de interesses coorporativos". Um candidato a deputado pode se eleger apenas com o voto de sua 'classe'. Um presidente, não. Portanto, afirma o autor, "a combinação de categorias socioeconômicas majoritárias no interior da representação parlamentar tem papel decisivo na determinação da ideologia, do programa, das metas e das estratégias dos partidos".
Ao longo do livro, Leôncio procura não levar o leitor a uma análise puramente marxista, que tenderia a vincular as representações políticas estritamente aos interesses das classes sociais. Fatores como ambição política, características individuais e diferenças regionais contribuiriam também para a formação do esqueleto de cada partido.