Pierre Lévy foi um dos primeiros filósofos a desenvolver uma linha de pensamento voltada para a compreensão dos fenômenos sociais que nasceram em um mundo de relações virtualizadas. Em seu novo livro, A conexão planetária, a ser lançado em 9 de abril pela Editora 34, Lévy descreve e analisa a sociedade conectada pela internet em escala global e prevê para breve a reintegração total da humanidade.

Para explicar melhor o processo de unificação das sociedades que culminou com o surgimento da internet, Lévy apresenta aos leitores uma pequena história da "aventura humana" sobre o globo. Segundo ele, os ancestrais mais diretos do homem, que apareceram entre um milhão e trezentos mil anos atrás, viviam todos na mesma zona geográfica e estavam em comunicação direta uns com os outros, mas acabaram por se dividir em subgrupos que buscavam territórios mais propícios à caça e à coleta de alimentos. "Em ondas sucessivas, a humanidade ocupa todos os continentes, todos os meios, da savana à floresta tropical", narra o pensador.
A reintegração da espécie humana teve início, segundo o livro, no século 15 com a chegada de Colombo à América. A Revolução Industrial também foi fundamental, pois determinou o retraimento do espaço prático ao possibilitar o desenvolvimento de transportes mais rápidos e redes de comunicação a distância.
Mas foi com o surgimento da internet que se formou a grande e única megalópole virtual, um espaço não territorial em que todos os centros urbanos se interconectam e formam o que Lévy chama de sociedade planetária. A conexão se dá nos mais diversos setores: político, econômico e cultural. "Nada do que é humano nos é estrangeiro. Nós, os planetários, consumimos no mercado mundial." Para um futuro próximo, o autor prevê a livre circulação de pessoas e o fim das fronteiras nacionais.
Embora ressalte que as diferenças entre centro e periferia tendem a aumentar conforme avançam os progressos tecnológicos, Lévy considera essa uma tendência da própria história: "É natural que as sociedades mais poderosas explorem o futuro antes que as outras." E acrescenta: "A questão das desigualdades mundiais não deve ser considerada como a resultante de uma situação de opressão em que uns são vítimas inocentes e outros, exploradores culpados." Mas não deixa de enfatizar que o progresso tende a absorver as zonas periféricas e que esse quadro inegável de dominação não é estático, já que as sociedades mais fortes levam o resto do mundo em seu rastro.
Pierre Lévy não se considera um otimista, mas chama os intelectuais mais críticos de rabugentos e afirma: "Pintar a realidade de maneira sombria não ajuda as pessoas (...); tento reconciliar meus semelhantes com seu próprio mundo e, assim, ajudá-los a viver."