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O livro na era do virtual

Historiador francês discute no Brasil a revolução do texto eletrônico

Ao longo de milênios, o livro passou por várias transformações que acarretaram mutações culturais e instauraram diferentes hábitos de leitura. O texto escrito já teve diversos suportes: pergaminhos, códex encadernados e, recentemente, a tela do computador. O texto eletrônico compete com as publicações impressas e parece desestruturar as noções de autor, leitor e editor no século 21. A passagem do papel para o cristal líquido chama a atenção de pesquisadores e suscita diversos debates.

Detalhe de Madona do Magnificat, de Sandro Botticelli, pintada entre 1482 e 1498

O historiador francês Roger Chartier, diretor de estudos na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris e especialista em história do livro, está no Brasil para apresentar uma série de conferências no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro, de 22 a 25 de maio, das 16 às 18 horas. Quem quiser assistir às palestras deve chegar ao local com uma hora de antecedência, pois serão distribuídas somente 60 senhas de acesso a uma sala com um telão no qual será mostrado o evento.

Chartier discorrerá nas palestras sobre a reorganização do mundo da escrita após o advento da internet, tema já abordado em A aventura do livro - do leitor ao navegador, obra publicada no Brasil pela editora Unesp. "Queremos colocar em pauta essa questão atualíssima que é o desafio do texto eletrônico", explica a jornalista Maria Amélia Mello, uma das organizadoras do evento. "O mercado editorial está em expansão e as mudanças na mídia estão caminhando muito rápido."

Reprodução de As duas irmãs, de Auguste Renoir, 1889

Chartier destaca três grandes revoluções na história do livro. A primeira se deu quando o texto em rolo, caracterizado pela forma do pergaminho, foi suplantado pelo códex, que é montado com folhas costuradas uma após a outra (formato do livro que predomina atualmente). O surgimento do códex alterou tanto a base material do livro quanto os hábitos de leitura. A segunda ocorreu no século 15, quando Gutenberg criou a prensa e transformou o modo de impressão sobre papel: o livro deixou de ser manuscrito. A mais recente surgiu no fim do século 20 e se caracteriza pela digitalização do texto. "O livro eletrônico revoluciona as estruturas do suporte material do escrito assim como as maneiras de ler", afirma Chartier em A aventura do livro.

O historiador discute também a mistura das funções de editor, autor e leitor. Hoje, com as possibilidades abertas pela internet, qualquer um pode escrever um texto, editá-lo e disponibilizá-lo na rede, desde que possua o equipamento apropriado e saiba manejá-lo. "Com a revolução industrial da imprensa, os papéis de autor, editor, tipógrafo, distribuidor, livreiro, estavam separados", conta Chartier. "Com as redes eletrônicas, essas operações podem ser acumuladas." Segundo ele, a experiência do leitor no espaço virtual também se transforma. "O novo suporte do texto permite usos e intervenções do leitor infinitamente mais numerosos e mais livres que qualquer uma das formas antigas de livro."

Andressa Camargo
Ciência Hoje/RJ
21/05/01

 

 
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