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Glauber Rocha, apresentador de TV

Análise do programa Abertura traça paralelo entre linguagens de cinema e televisão

No final da década de 70, o Brasil viveu um momento de distensão política que permitiu que intelectuais, artistas e pensadores 'marginalizados' manifestassem idéias até então sufocadas pela ditadura. Esse período da história brasileira foi sintetizado pelo programa de TV Abertura, apresentado pelo cineasta baiano Glauber Rocha (1939-1982) e veiculado na extinta TV Tupi entre 1979 e 1980. Construído a partir da metalinguagem, o programa marcou a introdução de um novo conceito de televisão no país. Com Abertura, Glauber expandiu para um outro meio a ousadia e irreverência que caracterizavam seu cinema.

A épica eletrônica de Glauber - um estudo sobre cinema e TV, escrito por Regina Mota, professora de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), enfoca um Glauber televisivo pouco conhecido. O livro apresenta paralelos entre as linguagens de cinema e TV e analisa a forma como ambas as mídias se transformaram mutuamente. A proposta é desfazer o conceito do senso comum que opõe o cinema como veículo de expressão artística à TV como meio banal e comercial. "Reconheço na televisão grandes e interessantes esforços estéticos", diz Regina.

Câmeras leves, som direto e o acaso do mundo real caracterizam o que Glauber Rocha chamava de 'relação direta do cinema novo'. Segundo a pesquisadora, as práticas televisivas vão se aproximar da estética do cinema e vice-versa à medida que os equipamentos são aperfeiçoados.

"Abertura foi o único momento em que uma mídia promoveu a outra no sentido da crítica, sob diferentes pontos de vista", ressalta Regina. O programa era uma revista eletrônica que debatia atualidades. Glauber analisava acontecimentos políticos a partir das propostas da contracultura (movimento de contestação da ordem por meio de diversas formas artísticas). "Essa era sua expressão ética e estética", diz Regina.

A épica eletrônica de Glauber é fruto do doutorado da autora, que pesquisou fontes em diversos suportes, disponíveis em instituições como a Fundação Nacional de Arte (Funarte). Regina Mota também entrevistou Fernando Barbosa Lima, diretor do Abertura, com quem obteve episódios do programa.

Inspirado no cinema soviético de Sergei Eisenstein e no neo-realismo italiano de Roberto Rossellini, Glauber Rocha representa bem a audácia, contestação e criatividade que caracterizavam o Cinema Novo, movimento do qual é o principal expoente. "Glauber dançava com a câmera, movimentava-se com graciosidade e não com gravidade", afirma Regina.

O livro aborda uma nova faceta do cineasta que completou em agosto vinte anos de morte. A contribuição de Glauber Rocha, que escandalizou parte da 'boa sociedade brasileira', esteve sedimentada em sua ânsia de polemizar e estimular o pensamento. Na TV, Glauber não abandonou sua linguagem cinematográfica, que desconstruía mitos da cultura nacional e expressava de forma primorosamente irriquieta os sentimentos do povo brasileiro.

A épica eletrônica de Glauber -
um estudo sobre cinema e TV

Regina Mota
Editora UFMG, Belo Horizonte, 2001
Lançamento previsto para setembro

Aline Pereira
Ciência Hoje on-line
03/09/01

 

 
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