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[1] A trajetória de Gödel, Escher e Bach é permeada por paradoxos. A obra do primeiro, por exemplo, parte do ’paradoxo de Epimênides’, caracterizado por uma afirmação auto-referente de linguagem, como a contida na frase ’esta afirmação é falsa’, que nos põe diante de um paradoxo insolúvel. O austríaco transpõe essa auto-referência para a matemática e desenvolve o Teorema da Incompletude, onde afirma que as formulações verdadeiras na teoria dos números incluem proposições indemonstráveis, ou seja, essa teoria estaria incompleta. Segundo Gödel, nenhum sistema fixo, por mais complicado que seja, pode representar a complexidade dos números inteiros.

Já em Escher, o paradoxo surge do conflito entre real e imaginário em seus desenhos intelectualmente estimulantes, que recorrem à repetição intensa de um mesmo tema. O holandês aplica padrões matemáticos e princípios de simetria a suas obras, nas quais ilusões e duplos sentidos são recorrentes.

A obra de Bach, por fim, é marcada pelo improviso. Suas composições dão voltas, o fim se associa ao começo, mas a unidade nunca é perdida. Cópias de um mesmo tema se alternam no tempo, no tom, na velocidade e podem até ser invertidas. Seus trabalhos transmitem um conflito entre finito e infinito, ou seja, há algo de matemático na produção desse artista.

 

  

 

 NOTÍCIAS :: CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO

Viabilidade das máquinas flexíveis

Livro parte de paradoxos da ciência e da arte para discutir inteligência artificial

A inteligência artificial é hoje um tema muito discutido. O assunto está amplamente presente na mídia: diversos são os filmes cuja história gira em torno de máquinas pensantes. Mas, se desde cedo aprendemos que raciocinar diferencia o homem das demais espécies, como seria possível mecanizar o que há de mais humano?

Paradoxos visuais são uma das características da obra de Maurits Cornelius Escher (à dir., em auto-retrato de 1943)

Se a resposta a essa pergunta lhe parece complicada, imagine então se ela vier acompanhada por uma análise da relação entre o lógico e matemático austríaco Kurt Gödel (1906-1978), o artista gráfico holandês Maurits Cornelius Escher (1898-1972) e o compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750). Essa é a proposta do livro Gödel, Escher, Bach - um entrelaçamento de gênios brilhantes, escrito pelo matemático e físico norte-americano Douglas R. Hofstadter. Publicado em 1979, o livro só ganhou edição brasileira em 2001.

[1]Gödel, Escher e Bach parecem gênios distantes, mas o estudo rigoroso apresentado por Hofstadter mostra que os três têm pontos de convergência: são auto-referentes e trabalham com paradoxos. Recorrentes na história da humanidade, a auto-referência e o paradoxo permeiam as atividades científicas e artísticas: mentes humanas se aplicam na investigação de mentes humanas; a arte desafia suas próprias regras. Mas seriam essas propriedades extensivas aos computadores? Poderiam eles decidir sobre seus programas?

Johann Sebastian Bach (esq.) e Kurt Gödel (dir.)


No início do século 20, os primeiros computadores eletrônicos digitais começavam a ser produzidos. Executavam operações fixas, não tinham memória nem podiam ser programados. Novas máquinas eram fabricadas, mas sempre com limitações. Surgiu então a idéia de uma máquina analítica, com capacidade de memória, cálculo e decisão. A humanidade se viu dividida: alguns buscavam uma inteligência mecanizada, outros duvidavam dela.

Hofstadter localiza muito bem o leitor no cerne dessa questão. Ele afirma que o comportamento inteligente se caracteriza pela flexibilidade. No entanto, no cotidiano dos homens, diferentes situações geram respostas que, em algum grau, estão baseadas em padrões. Portanto, não bastariam as regras rígidas para tornar os computadores absolutamente inflexíveis. Talvez não seja um paradoxo insolúvel desenvolver uma máquina capaz de decidir sobre sua própria programação.

Não espanta o fato de um livro que trata de tantos paradoxos se estruturar de forma ao mesmo tempo criativa e convencional. O conteúdo dos capítulos é sempre introduzido por diálogos ilustrativos que permitem uma compreensão mais aprofundada das questões complexas da matemática. Esses tópicos são analisados com naturalidade e não espantam o leitor.

Gödel, Escher, Bach trata de matemática, arte, biologia, filosofia, história, informática etc, sem perder a unidade. O livro envolve o leitor da primeira a última linha, ainda que esse intervalo tenha mais de 800 páginas.

Gödel, Escher, Bach - um entrelaçamento de gênios brilhantes
Douglas R. Hofstadter (tradução: José Viegas Filho)
Editora UnB, Brasília, 2001 - 866 páginas - R$ 70

Fernanda Marques
especial para CH on-line
20/08/01

 

 

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