.
Nada que abale espécies como a C. hilariana. Diante do problema, elas conseguem uma saída interessante: assimilar gás carbônico à noite, ao contrário da maioria das plantas, que o fazem de dia. A opção de deixar o 'trabalho pesado' para o período noturno faz com que, naturalmente, elas transpirem menos.
Só que tudo tem seu preço. Para produzir os mesmos açúcares (alimentos) de uma planta que absorve gás carbônico diurno, espécies que assimilam CO2 à noite precisam cumprir mais etapas metabólicas. A absorção noturna de gás carbônico requer um sistema de enzimas adicional, que não existe na maioria das plantas, o que implica um custo energético maior e pode comprometer o crescimento da planta.
Mas a Clusia não dá o galho a torcer. É grande, tem um mecanismo fotossintético bem ajustado ao ambiente extremo em que se encontra e, ainda por cima, brinda seu ecossistema com dois presentes: sombra -- que ameniza a desidratação das companheiras -- e alimento -- por devolver à vizinhança uma grande quantidade de matéria orgânica. Sorte de poucos, pois a espécie aparece apenas em alguns pontos da costa fluminense, capixaba e em partes do Nordeste.
Já os pesquisadores não têm do que se queixar. Desde 1993 a equipe estuda a espécie e já fez parcerias com universidades estrangeiras, além de transformar a área de pesquisa, onde a Clusia é abundante, em parque nacional. Atualmente, o grupo tem o apoio do Ibama, da Petrobras e do CNPq.
O projeto deve ser concluído em dois anos e aguarda a chegada de novos equipamentos para medir a troca de gases entre a vegetação e a atmosfera. Assim, será possível determinar, com maior precisão, o papel desse ecossistema no processo. "Nosso enfoque é a vegetação como um todo e não apenas uma planta", ressalta o professor Fábio. A vizinhança, feliz, agradece.
Rafael Barros
Ciência Hoje On-line
30/09/03