Vasos sangüíneos guiariam formação do pâncreas
Descoberta ilumina diferenciação embrionária e pode levar a tratamento para diabetes
Vasos sangüíneos podem mandar sinais químicos que desencadeiam a formação do pâncreas e possivelmente de outros órgãos durante o desenvolvimento embrionário, segundo pesquisadores da Universidade de Harvard (EUA). A descoberta dessa nova função para os vasos sangüíneos pode levar a novos tratamentos para a diabetes, doença provocada pela ausência ou deficiência de um hormônio produzido no pâncreas -- a insulina. O estudo, realizado pelo professor Douglas Melton e pelos estudantes de pós-doutorado Eckhard Lammert e Ondine Cleaver, foi publicado em 28 de setembro na revista Science.
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Cristais de insulina humana, hormônio produzido em células pancreáticas | |
Até então, os cientistas acreditavam que primeiro os órgãos se formavam para só então receberem a irrigação dos vasos sangüíneos, que garantiriam o suprimento de sangue para seu crescimento. A pesquisa de Melton indica que órgãos e vasos se desenvolvem juntos. Além do sangue, os vasos carregariam células que secretam substâncias que desencadeiam a formação do pâncreas. Esse sinalizador bioquímico, possivelmente uma proteína, ainda não foi identificado e está sendo chamado de fator X.
O pâncreas é uma glândula do sistema digestivo responsável pela produção de insulina. A formação das células pancreáticas seria guiada pela secreção do fator X a partir dos vasos sangüíneos quando em contato com o 'tubo' primitivo a partir do qual se desenvolvem o pâncreas e órgãos como pulmão, fígado e estômago.
Em testes com embriões de sapos, os cientistas removeram os vasos sangüíneos adjacentes ao tecido pancreático e constataram a ausência dos sinais característicos de diferenciação do pâncreas -- produção de insulina e expressão de certos genes em nível normal.
Em seguida, criaram um rato transgênico em que o gene que estimula a formação dos vasos sangüíneos estava superexpresso. Os cientistas observaram que o crescimento de tecido endotelial (que reveste os vasos) levou ao aumento do número de células beta (que produzem a insulina no pâncreas). Essas células foram encontradas até no estômago do rato -- órgão em que geralmente não ocorrem.
Por fim, em um tecido de intestino de rato com genes humanos desenvolvido em laboratório sem contato com vasos sangüíneos, os cientistas constataram que nenhuma insulina foi produzida. O pâncreas só começou a se desenvolver após a adição de tecido endotelial.
Na avaliação de Douglas Melton, a descoberta permite entender apenas um passo no processo de formação pancreática. Agora, sua equipe espera identificar o fator X e, com isso, compreender a diferenciação embrionária e a formação das células beta. "Isso poderia ajudar os cientistas a encontrar novos tratamentos para milhões de diabéticos." Da mesma forma, a descoberta de outras etapas que envolvem a constituição de outros órgãos que se formam a partir do mesmo tubo primitivo poderia orientar o tratamento de doenças que afetam pulmão, fígado ou estômago.
Caroline Vilas Bôas
Ciência Hoje on-line
20/11/01