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 NOTÍCIAS :: BIOLOGIA

Vida teria surgido em água doce, e não em oceanos
Sal pode ter inibido processos essenciais para a origem dos seres vivos primitivos

Uma das mais famosas teorias científicas sobre a origem da vida na Terra, segundo a qual os primeiros organismos teriam surgido em um ambiente marinho, pode estar errada. De acordo com uma pesquisa realizada por cientistas da Universidade da Califórnia de Santa Cruz, nos Estados Unidos, processos que teriam sido fundamentais para o desenvolvimento dos seres primitivos são inibidos pelo sal. Os resultados desse estudo serão publicados em breve na revista Astrobiology.

Vesículas formadas por ácidos graxos provavelmente presentes na Terra primitiva (esq.). À dir., as vesículas entram em colapso na presença de NaCl, Mg2+ e Ca2+

De acordo com o novo estudo, os primeiros seres vivos surgiram em pequenos lagos de água doce, onde moléculas primitivas com informação genética e capazes de se replicar (no caso, moléculas de RNA) foram cercadas por vesículas. Tais membranas seriam formadas por ácidos graxos, compostos que teriam sido trazidos para a Terra por meteoros ou cometas.

"Estudamos os efeitos de sais do mar em dois fenômenos relevantes para a origem da vida: a formação de vesículas e a síntese espontânea de RNA, na ausência de enzimas", explica à CH on-line o pesquisador Charles Apel, um dos autores do trabalho. "Ambos os processos, que dependem da agregação de moléculas, ficavam prejudicados na presença de cloreto de sódio (NaCl) e íons magnésio (Mg2+) e cálcio (Ca2+)."

Segundo os cientistas, os sais do mar impediram o surgimento das formas primitivas de vida por dois motivos principais. Em primeiro lugar, as elevadas concentrações de NaCl no ambiente marinho desestabilizam as vesículas, pois as fazem murchar. Além disso, íons Mg2+ e Ca2+, provavelmente abundantes nos oceanos primitivos, provocam a precipitação de ácidos graxos e outros compostos que têm potencial para formar membranas. Altas concentrações desses íons também bloqueiam a síntese espontânea de RNA e outras macromoléculas orgânicas.

Em seus experimentos, os pesquisadores verificaram que, mesmo na presença de concentrações salinas inferiores às observadas hoje nos oceanos, as moléculas de ácidos graxos não conseguiam se organizar em vesículas estáveis e as cadeias de RNA produzidas tinham comprimento reduzido. "Queremos agora determinar qual a menor concentração de sal capaz de interferir negativamente nos sistemas que teriam dado origem às formas primitivas de vida", conta Apel.

Se quantidades pequenas de sal já são suficientes para inibir a formação de vesículas e a síntese moléculas de RNA, a vida não deve ter surgido em um ambiente marinho, pois acredita-se que os oceanos primitivos eram quase duas vezes mais salgados que os atuais. "Os primeiros seres vivos devem ter se desenvolvido na água pura, onde a concentração salina é baixa", afirma Apel. "Como água pura é mais facilmente encontrada na terra, sob a forma de pequenos lagos, provavelmente a vida só surgiu quando os continentes ou as ilhas vulcânicas se estruturaram."

Fernanda Marques
Ciência Hoje on-line
21/05/02

 

 

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