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"A Lua, irmão do Sol, entrava tateando no escuro, no quarto da irmã de seu pai, com a intenção de fazer amor com ela. Para saber quem a importunava todas as noites, sua tia lambuzou os dedos com resina e, de noite, enquanto a Lua a procurava, passou a mão em sua face. No dia seguinte, bem cedo, a Lua foi lavar a face para retirar a resina. No entanto, ela não saiu, sujando mais ainda a face da Lua: por esse motivo, ela tem sempre a face manchada. Desde então, a lua nova lava seu rosto, fazendo chover para tentar tirar as manchas de resina que ficam mais visíveis quando ela se torna cheia. Esse precedente ensina a conduta aos tupi-guarani que não devem cometer incesto."

Mito relatado no CD-ROM Arqueoastronomia brasileira

 

 NOTÍCIAS :: ASTRONOMIA E EXPLORAÇÃO ESPACIAL

O saber astronômico dos índios brasileiros 
Conhecimento dos astros determina rituais e práticas cotidianas desses povos

A observação do céu foi a base do conhecimento de várias sociedades antigas, como a maia e a egípcia. Esses povos foram profundamente influenciados por fenômenos celestes: dia e noite, fases da Lua, estações do ano. No Brasil, o professor Germano Bruno Afonso, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), estuda há dez anos os conhecimentos astronômicos de diversas tribos indígenas. A pesquisa resultou no CD-ROM Arqueoastronomia brasileira, que tenta resgatar esse saber e mostrar como, antes do contato com os europeus, os índios se orientavam e relacionavam o céu, clima, fauna e flora de sua região com a época do ano.

Arte computacional de gravuras rupestres que representam, em sentido horário, a Lua, um cometa, o Sol e um meteoro (imagens: CD-ROM Arqueoastronomia brasileira)

A arqueoastronomia, área de pesquisa pouco explorada no Brasil, estuda a astronomia de culturas pré-históricas e povos antigos. No mundo, pesquisadores de diferentes áreas tentam entender como os fenômenos astronômicos influenciaram o cotidiano dessas sociedades, que se organizavam a partir desse conhecimento.

Afonso explica que as evidências para a pesquisa em arqueoastronomia são fragmentadas e sujeitas a diferentes interpretações, pois as fontes principais são figuras rupestres e monumentos de rocha. Para entender como a cultura indígena organiza o conhecimento astronômico, Afonso recorre também à etnoastronomia, que se baseia em relatos e observações dos índios de hoje, sobretudo os pajés, sobre a tradição milenar transmitida oralmente. "Daqui a duas gerações, parte dessa história pode estar perdida por falta de registros", lamenta.

Afonso viajou pelo país e realizou pesquisa de campo com a tribo Tembé, no Pará, e com os Tupi-guarani, nas regiões Sul e Sudeste. Ele classifica o conhecimento indígena em dois tipos: o cotidiano, em que os períodos de sol e chuvas definem as estações do ano e as constelações marcam os rituais; e o religioso, em que a ação de deuses e espíritos explicaria os principais fenômenos celestes, como os eclipses.

Comparação da constelação indígena da Ema com os grupos de estrelas hoje conhecidos

"A astronomia influenciava totalmente a vida dos índios brasileiros", explica Afonso. Atividades cíclicas, como plantio ou colheita de alimentos, eram determinadas pelo surgimento ou desaparecimento de estrelas. Algumas constelações eram batizadas com nomes de animais, como Ema ou Tinguaçu. O recurso a elementos cotidianos para explicar fenômenos celestes (como eclipses ou a existência de crateras na Lua) é uma constante entre os índios. "Para eles, a Terra é apenas um reflexo do céu", explica Afonso.

O CD-ROM apresenta histórias sobre dez constelações indígenas, sobre a Lua, o Sol e Vênus (que adquirem inúmeros significados na cultura indígena), e o resgate de mitos, entre outros. Por falar as línguas guarani e tupi, Afonso planeja escrever um livro bilíngüe. "O CD foi apenas o primeiro passo de um longo trabalho sobre um conhecimento que até há pouco não tinha registro."

O CD-ROM Arqueoastronomia brasileira
pode ser adquirido por R$ 25 junto ao
professor
Germano Afonso

Para saber mais sobre o tema, visite na internet
o site da UFPR sobre
astronomia tupi-guarani

Cristina Souto
Ciência Hoje/RJ
22/05/01

 

 
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