Baixa gravidade favoreceria reprodução
Levados ao espaço, espermatozóides tiveram atividade celular estimulada
As células reprodutoras masculinas -- os espermatozóides -- são sensíveis a pequenas mudanças nas forças gravitacionais, o que pode afetar sua habilidade de fertilizar as células reprodutoras femininas -- os óvulos. É o que mostra uma pesquisa coordenada por Joseph Tash, professor da Universidade de Kansas (EUA) e cientista da agência espacial norte-americana (Nasa). O estudo, publicado em maio na revista Biology of Reproduction, examina os efeitos da gravidade sobre a reprodução de ouriços-do-mar (Lytechinus pictus e Strongylocentrotus purpuratus).
A equipe do professor Tash mediu a capacidade de locomoção (motilidade) de espermatozóides em ambientes com diferentes gravidades. Ouriços-do-mar são um excelente modelo experimental para estudar o impacto de alterações no campo gravitacional sobre o desenvolvimento dos seres vivos, pois seus espermatozóides se preservam e ativam com facilidade.
Quando espermatozóides foram colocados em biorreatores e levados em vôos espaciais a ambientes de gravidade extremamente reduzida, algumas proteínas sofreram alterações e a atividade celular foi estimulada. Por outro lado, quando as células reprodutoras foram submetidas à centrifugação em baixa velocidade -- o que aumenta a força gravitacional --, a atividade dos espermatozóides diminuiu. Os resultados sugerem que a fertilização dos óvulos é inibida onde a gravidade é elevada e pode ser favorecida sob campos gravitacionais fracos. Os dados mostram ainda que o comportamento dos espermatozóides é mais influenciado pela gravidade que o dos óvulos.
Segundo Tash, os mecanismos motores dos espermatozóides foram em grande parte conservados entre ouriços-do-mar e humanos. Por isso, é possível que células reprodutoras das duas espécies respondam de maneira similar às diferentes gravidades. "Contudo, há diferenças no processo de fertilização: a água do mar, onde o fenômeno ocorre para os ouriços, é completamente diferente do aparelho reprodutor das mulheres", afirmou o cientista à CH on-line. Ainda é preciso verificar os efeitos da gravidade sobre a reprodução do homem.
Hoje, a reprodução humana no espaço não é uma necessidade imediata. Mas caso a produção de plantas e animais que servem de alimento ao homem seja realmente favorecida em baixas gravidades, as viagens espaciais poderão durar mais tempo. "Nossa pesquisa mostrou apenas em parte como as baixas gravidades afetam a reprodução das espécies", diz Tash. "Mais estudos precisam ser realizados." Os cientistas já estão estudando a influência da gravidade sobre a produção de espermatozóides.
Fernanda Marques
especial para CH on-line
07/11/01