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 NOTÍCIAS :: ASTRONOMIA E EXPLORAÇÃO ESPACIAL

Anunciadas as mais concretas evidências de água em Marte
Descoberta da Nasa pode viabilizar futuras missões tripuladas ao planeta vermelho

Após apenas um mês na órbita de Marte, a sonda Mars Odissey, da Nasa, fez a mais fascinante descoberta sobre o planeta vermelho em muitos anos: a análise de emissões de nêutrons e raios gama aponta boas chances de que exista uma imensa quantidade de água congelada abaixo do solo marciano. A presença do gelo joga nova luz sobre o passado do planeta e pode viabilizar futuras missões tripuladas a Marte.

A descoberta será publicada em 30 de maio em três artigos no site da revista Science. Sua divulgação estava impedida até essa data, como acontece com outros estudos publicados na mesma revista. O jornal londrino Sunday Times, no entanto, iniciou uma série de vazamentos -- que chegou ao Brasil. A CH on-line respeitou o acordo e só divulga a descoberta após a suspensão do embargo, decidida pela Science após os vazamentos.

Há muito se suspeitava que Marte já teve água liquida em sua superfície: a sonda Mars Global Surveyor, por exemplo, descobriu no ano 2000 sulcos na superfície do planeta que pareciam ser formados por água fluente; no mesmo ano, a sonda registrou a presença de rochas sedimentares que teriam surgido em lagos e mares há bilhões de anos. Não havia, no entanto, dados tão convincentes quanto os obtidos agora pela Odissey.

Camadas sedimentares (esq.) e sulcos (dir.) na superfície de Marte descobertos em 2000 seriam provas da existência passada de água no planeta (fotos: Nasa/JPL/MSSS)


As três equipes responsáveis pela descoberta -- lideradas pelo russo Igor G. Mitrofanov e pelos americanos William Feldman e William Boynton -- usaram o espectrômetro de raios gama da sonda Odissey para encontrar evidências da presença de hidrogênio do planeta. Isso porque é muito provável que o hidrogênio esteja contido em moléculas de água (H2O).

O espectrômetro da sonda analisou os nêutrons e raios gama que a superfície de Marte emite ao ser atingida por raios cósmicos. Com a medição, foi possível saber quais são os elementos químicos presentes no solo e a concentração de cada um deles.

O resultado foi uma surpresa: havia uma grande quantidade de hidrogênio -- e gelo, por conseqüência --, especialmente nas proximidades dos pólos. A concentração fica ainda maior abaixo de 60 graus de latitude sul. Como a Odissey estudou a composição do solo até a profundidade de um metro, é possível que a concentração de gelo se mantenha até muito abaixo. O gelo poderia ser suficiente para, se derretido, cobrir todo o planeta com um oceano de até 1,5 quilômetro de profundidade.

Mapa do solo de Marte mostra análise da composição do solo feita pela Mars Odissey. Em azul-marinho, as porções ricas em hidrogênio

"Os resultados, mesmo após apenas um mês de observações, são surpreendentes", diz o astrônomo Martin Bell, da Universidade de Cornell (EUA), que comentou os estudos para a Science. "O gelo encontrado pela Odissey pode ser somente a ponta de um iceberg."

Como, segundo os artigos, o gelo é facilmente acessível, a descoberta tem enorme importância para futuras missões tripuladas. Diminuiria exponencialmente a quantidade de água a ser levada em uma possível viagem, e possibilitaria a produção (pela separação do hidrogênio) do combustível necessário para a volta à Terra.

Tiago Lethbridge
Ciência Hoje on-line
29/05/02

 

 
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