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 NOTÍCIAS :: ASTRONOMIA E EXPLORAÇÃO ESPACIAL

Evento traz ao Brasil cosmologistas de todo o mundo
Em entrevista à CH on-line, Mario Novello discute situação do campo de pesquisa hoje

Cosmologistas de todo o mundo estão reunidos desde o dia 29 de julho em Mangaratiba (RJ) para a 10a Escola Brasileira de Cosmologia e Gravitação. O evento, realizado pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e o Centro Internacional de Astrofísica Relativística (Icra, na sigla em inglês), completa 25 anos de existência em 2002. A décima edição, que termina em 9 de agosto, tem cursos ministrados por cientistas de seis países além do Brasil.

O cosmologista Mario Novello em seu gabinete no CBPF

Pouco antes de deixar o Rio de Janeiro para o evento, o físico Mario Novello -- um dos mais renomados pesquisadores brasileiros na área --, membro do comitê organizador da Escola, concedeu esta entrevista à CH on-line. Nela, o cosmologista fala da situação da cosmologia no país e da fundação do Icra/Rio.


Como vai a pesquisa em cosmologia no Brasil?

Na década de 1970, não havia nenhum estudo de cosmologia no Brasil. Tinha-se a impressão de que a cosmologia era uma ciência à parte, não era uma ciência convencional como outra qualquer. Tivemos que vencer no começo esse tipo de desconhecimento que se passava não só no CBPF, mas em todo o Brasil e no mundo inteiro. O nosso grupo no CBPF começou os primeiros cursos, que tinham como objetivo formar pesquisadores. À medida que esse grupo foi se desenvolvendo, mais pessoas no Brasil e no exterior foram se interessando e mais teses foram sendo feitas aqui. Após a conclusão de seus trabalhos, essas pessoas retornavam a seus respectivos estados ou países, onde criavam novos grupos. Os pesquisadores de cosmologia e gravitação da Universidade Federal da Paraíba em João Pessoa, cujo grupo é um dos mais importantes no Brasil, foram nossos alunos. O mesmo aconteceu na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, na Uerj e na UFRJ. Atualmente, o Brasil faz pesquisa de ponta nessa área. A média de artigos publicados no país é alta. Inclusive, a desses pesquisadores do Nordeste é mais alta que a média brasileira nessa área.


O que diferencia a cosmologia da astrofísica?

Astronomia, astrofísica e cosmologia cobrem de certa maneira assuntos similares. A astronomia estuda a Terra e tudo que existe fora dela, ou seja, os planetas, o Sistema Solar, as galáxias. A astrofísica estuda os mesmos temas, mas do ponto de vista de objetos concentrados, por exemplo, estrelas -- como são feitas, como evoluem. Já a cosmologia estuda tudo o que existe (energia, matéria e espaço-tempo) dentro de um horizonte de observação definido pela velocidade da luz.


Quais são os destaques da 10a Escola de Cosmologia?

O [Remo] Ruffini [Icra/Itália] vai apresentar uma teoria maravilhosa da explicação da origem das rajadas de raios gama (gamma ray bursts). Já o Edward Kolb [Fermilab (EUA)] vai falar sobre tudo o que aconteceu nos últimos 25 anos em relação ao momento de máxima condensação do universo, o big bang. Vamos ter também o Jorge Pullin [Universidade Estadual da Pensilvânia (EUA)] falando de efeitos quânticos da gravitação, um grupo do Collège de France falando sobre as novidades em cosmologia observacional, e um brasileiro que foi meu aluno de doutorado, o Nami Fux Svaiter [CBPF], e agora já é professor, falando sobre a teoria de campos a uma temperatura diferente de zero, que é importante para estudar o que aconteceu no big bang.

Qual a principal dificuldade enfrentada na pesquisa em cosmologia?

Como toda a ciência fundamental brasileira, nosso principal problema é verba. Os órgãos financiadores não dão dinheiro para esse tipo de pesquisa. Com essa loucura de aplicação em fundos setoriais, onde o dinheiro gerado por uma atividade só pode ser aplicado em pesquisa voltada para aquela atividade, ou seja, recursos da Petrobras só podem financiar pesquisa na área petrolífera, a pesquisa fundamental está fadada a acabar. Acho importantíssimo que a Petrobras financie estudos sobre petróleo. O que não pode acontecer é essa estrutura absurda de só se dar dinheiro para pesquisas que tenham aplicação prática. Quando o [físico escocês] James Maxwell [1831-1879] descobriu as ondas eletromagnéticas, não estava interessado em ganhar dinheiro ou desenvolver tecnologia. Ele queria saber como a natureza funcionava. Na época, ninguém sabia qual a utilidade desse fenômeno. Hoje em dia, você não pode imaginar o século 20 sem a tecnologia que faz uso delas. A tecnologia é importante, mas é conseqüência.

Sempre se escuta o argumento de que não temos competitividade e devemos deixar a ciência fundamental para EUA e Europa. Isso depende. É preciso financiar várias áreas e deixar as coisas se estabelecerem. Há cem anos, os EUA também não sabiam nada de ciência, ela era feita na Europa. Eles mudaram porque houve um investimento maciço na ciência fundamental lá, só isso.


O que é o Centro Internacional de Astrofísica Relativística (Icra) e qual sua situação atual?

O Icra é um instituto com sede em Roma, na Itália. O seu diretor, Remo Ruffini, teve a idéia de criar uma rede internacional de apoio mútuo e resolução de problemas complexos em astrofísica e cosmologia. Essa rede reúne especialistas do mundo inteiro de tal maneira que, a cada momento, se eu me deparar com um problema de cosmologia ou astrofísica, saberei exatamente quem posso contactar na hora para resolver o problema em um, dois ou três dias. Com esse fim, Ruffini estabeleceu várias sedes do Icra ao redor do mundo. Existem institutos na Austrália, na China, na França, no Japão, na Rússia e nos EUA. Como o Hemisfério Sul só estava representado pela Austrália, o Ruffini me convidou a criar um Icra no Rio de Janeiro. O Icra/Rio foi apoiado tanto pelo município quanto pelo estado do Rio de Janeiro. De fato, o instituto só existe graças à Faperj e ao CBPF, já que o Ministério de Ciência e Tecnologia tem ignorado o projeto.

Fred Furtado
Ciência Hoje on-line
05/08/02

Veja na internet o site da X Escola Brasileira de Cosmologia e Gravitação

 

 
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