Após o surgimento do universo, 20% da matéria que o compõe começou a agregar-se, sob ação da gravidade, para formar estrelas e galáxias. Teorias sugerem que os outros 80%, bem como a matéria escura, passaram a fazer parte de uma rede de filamentos muito estreitos que liga uma galáxia a outra. Ainda não há consenso entre os astrônomos quanto à natureza da matéria escura, que, embora não forme corpos celestes e só possa ser demonstrada por cálculo, seria abundante no universo.
 |
|
Parte dos raios-X emitidos por um quasar distante é absorvida pelo gás quente ao atravessarem a rede intergaláctica (arte: Nasa/MSFC/SAO) | |
A existência dessa rede de filamentos, porém, ainda não havia sido comprovada. Recentemente, as estruturas que conectam as galáxias foram evidenciadas por quatro grupos de pesquisa independentes. Baseados em dados colhidos pelo Observatório Chandra de Raios-X, da agência espacial norte-americana (Nasa), os estudos mostram que a paisagem intergaláctica é composta por um sistema de inúmeros filamentos de gás cuja temperatura chega a atingir cinco milhões de graus centígrados. Os resultados, publicados em artigos separados no Astrophysical Journal, sugerem que a detecção do gás pode ajudar a determinar a distribuição da matéria escura no universo.
Segundo os cientistas, a descoberta dos filamentos de gás quente representa um avanço no entendimento de como se deu a evolução do universo. "Isso completa nossa compreensão acerca da quantidade de matéria 'normal' que existe no universo e da forma que ela tem", afirma à CH on-line Claude Canizares, coordenador de um dos grupos de pesquisa. "Além disso, o gás quente segue o rastro da matéria escura."
A rede que conecta as galáxias é gigantesca: nem todas as estrelas do universo juntas conseguem ter mais matéria que o gás quente dos filamentos. O processo de aquecimento desse gás começou há cerca de 10 bilhões de anos e continua até hoje, pois a gravidade faz com que suas moléculas se movimentem e colidam. A gravidade também é responsável pela organização do gás na rede. "Ela puxa o gás quente e a matéria escura para dentro das estruturas filamentosas", explica Canizares. No entanto, nos locais onde o gás se torna bastante denso, ele pode resfriar e dar origem a novas estrelas e galáxias.
Embora há bilhões de anos as galáxias estejam ligadas umas às outras por inúmeros filamentos de gás quente, só agora a ciência desenvolveu instrumentos capazes de detectá-los. Como a rede intergaláctica é muito difusa e apresenta temperatura muito elevada, só é possível evidenciá-la por meio da emissão ou absorção de raios-X.
Algumas equipes de cientistas, como a de Canizares, utilizaram quasares, objetos cósmicos que emitem raios-X, para investigar os estreitos filamentos que conectam as galáxias. Os raios-X emitidos por um quasar distante vêm em direção à Terra, mas, ao atravessarem a rede intergaláctica, uma pequena parte deles é absorvida pelo gás quente. No Observatório Chandra, os cientistas mediram a diferença entre a radiação emitida pelo quasar e a que efetivamente atinge a Terra. "O fenômeno que conseguimos detectar nos permite identificar a temperatura e localização do gás", comemora Canizares.
Fernanda Marques
Ciência Hoje on-line
12/08/02