O nome de Gilberto Freyre é freqüentemente associado à obra Casa-grande & senzala, a ponto de se confundir com ela. O livro - o primeiro do escritor - é inovador e mudou a visão que se tinha da sociedade brasileira. No entanto, ele se destacou de tal forma que ainda hoje ofusca o restante da produção do autor e o brilho de sua carreira, que não pode ser resumida em uma única contribuição.
Gilberto Freyre foi o responsável pela introdução da antropologia moderna no Brasil - uma adaptação do modelo norte-americano à realidade nacional. Influenciado pelas idéias do alemão Franz Boas, que ele considerava "o maior dos antropólogos de língua inglesa de todos os tempos", Freyre abordou temas como a importância do escravo na formação cultural brasileira, sexualidade, raça e miscigenação.
A partir das pesquisas de Freyre, o cotidiano foi reconhecido como elemento relevante para o estudo das ciências sociais, e o Brasil passou a se conhecer mais e melhor. Seu legado, indispensável para compreender a formação social brasileira, suscita uma admiração sem fronteiras ideológicas. No entanto, a unanimidade que o antropólogo se tornou hoje não reflete seu desejo nem sua realidade quando vivo.

Com idéias chocantes para sua época, Freyre assumiu posições controversas e desagradou a muita gente, embora se visse como um harmonizador de contrários. Não se importava em ter inimigos e seguia aquilo que achava correto. Em 1964, acreditou que os militares eram a única opção possível para o país - o menor dos males. Durante a ditadura, foi chamado para ser ministro da educação. Não aceitou, mas participou da escolha de diversos ministros.
Tido como reacionário por muitos, Gilberto Freyre se considerava um anarquista construtivo. Na Universidade do Distrito Federal, onde a convite de Anísio Teixeira fundou a primeira cadeira de antropologia sócio-cultural do Brasil, encontrou resistência aos métodos educacionais que adotava. Seu estilo de aula informal, quase uma conversa, chocou seus colegas, cheios de "flama oratória".
A última grande obra do antropólogo foi a criação da Fundação Gilberto Freyre, em maio de 1987, sediada em Apipucos, sua querida casa no Recife. Além de reunir seus bens e acervo pessoal, ele quis fazer do local um espaço que incentivasse o estudo da realidade e da cultura brasileiras, especialmente nordestinas. Dois meses depois, o antropólogo faleceria, no dia do aniversário de sua esposa, Madalena. Hoje, a fundação continua a cumprir sua missão, oferecendo farto material de pesquisa, um sítio ecológico e a oportunidade de aprender um pouco mais sobre a vida e a obra de um dos maiores cientistas sociais brasileiros do século XX.
Renata Ramalho
Ciência Hoje/RJ