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 PERFIS -  ANTÔNIO HOUAISS

O homem dicionário
Antônio Houaiss foi um dos maiores estudiosos da língua portuguesa no país

Imagens cedidas pelo Memorial Antônio Houaiss, do Centro Brasileiro de Estudos Latino-americanos (Cebela)

Certa vez, uma bancária discutiu com colegas uma dúvida de português: alguns objetos estavam sendo mandados para conserto, e ela havia escrito que seriam "quatro cadeiras numeradas e três desnumeradas". Para descobrir se a palavra existia, ela decidiu ligar para o filólogo Antônio Houaiss. "Falando com ele não há dúvidas", explicou a Fátima Scaranno, auxiliar do professor nos últimos anos de sua vida. O episódio demonstra a referência que Houaiss representa quando se discute língua portuguesa.

Antônio Houaiss é difícil de ser definido. Foi filólogo, enciclopedista, acadêmico, tradutor, crítico, diplomata, ministro da cultura e gourmet. Publicou livros sobre assuntos tão diversos quanto política e culinária, obras de referência e traduções. "Ele sabe tanto sobre tantas coisas pelo fato de se haver apaixonado perdidamente por cada uma delas", disse certa vez o escritor Antônio Calado.

Houaiss nasceu no Rio de Janeiro em 15 de outubro de 1915. Em 1942, foi licenciado em Letras pela Faculdade Nacional de Filosofia, embora desse aula no curso secundário técnico da prefeitura desde 1934. Ao tornar-se diplomata, o professor se afastou das salas de aula, mas não dos estudos da língua portuguesa. Escreveu trabalhos sobre a língua falada culta no Brasil e outros tantos sobre a escrita. Reconhecia na língua um fator de dominação; não acreditava que apenas 30% da população brasileira fosse analfabeta. Dizia que 70% era funcionalmente iletrada.

O professor era um grande teórico da ecdótica - ou, segundo o dicionário que idealizou, "ciência que busca por meio de minuciosas regras hermenêuticas e exegese restituir a forma mais próxima que seria a redação inicial de um texto a fim de que se estabeleça a sua edição definitiva crítica textual". Participou da Comissão Machado de Assis, criada para preparar uma edição crítica do autor. Escreveu a partir daí a Introdução filológica às Memórias Póstumas de Brás Cubas. Segundo Leodegário de Azevedo Filho, presidente da Academia Brasileira de Filologia, Houaiss "lançou as bases realmente científicas para o estudo do maior escritor brasileiro de todos os tempos".

Após alguns anos na diplomacia, Houaiss foi convidado por Abraham Koogan para editar a Grande enciclopédia Delta-Larousse. A partir de então, seria responsável por diversas obras de referência, editando títulos como Barsa e Webster's e o Vocabulário ortográfico da Academia Brasileira de Letras. Aos poucos, surgiriam seus dois grandes sonhos: a unificação da ortografia da língua portuguesa e a elaboração de um grande dicionário desse idioma.

Renata Ramalho
Ciência Hoje/RJ 
 

 

 
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