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 NOTÍCIAS :: ARQUEOLOGIA E PALEONTOLOGIA

Crocodilo extinto de 70 milhões de anos ganha réplica
Fósseis de várias gerações do réptil viabilizam estudo morfológico e evolutivo apurado

Há 70 milhões de anos, Marília -- uma cidade do interior do estado de São Paulo -- era uma área de extensas planícies, com expressivos cursos d'água e clima seco e quente. Nessa região, viveu uma espécie de crocodilo -- o Mariliasuchus amarali -- com grandes órbitas oculares, narinas anteriores, crânio curto, dentes globosos especializados no desgaste de troncos, postura ereta, cerca de 30 centímetros de altura e, no máximo, 1,5 metro de comprimento.

Foram encontrados ossos fossilizados de cinco animais da espécie Mariliasuchus amarali: três adultos, um jovem e um filhote

Cerca de três anos atrás, os primeiros indícios da existência desse animal foram encontrados por William Nava, paleontólogo amador que recolhia sistematicamente material fossilizado em uma fazenda de Marília. Com a ajuda das equipes dos professores Reinaldo Bertini, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e Ismar Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), realizaram-se novas pesquisas de campo e mais material foi descoberto. A réplica do crocodilo foi apresentada ao público em junho de 2001.

"Em um único afloramento, foram encontrados ossos fossilizados de cinco animais da espécie M. amarali: três adultos, um jovem e um filhote", relata o biólogo Pedro Nobre, da UFRJ. Os achados representam cerca de 80% do esqueleto do crocodilo. "A preservação do material é fantástica", afirma o pesquisador. Graças à impregnação com carbonato de cálcio -- substância abundante em Marília --, muitos detalhes anatômicos das ossadas ainda estão evidentes.

A descoberta permitiu descrever os hábitos do M. amarali. Capaz de percorrer longas distâncias, o réptil vivia em terra firme, ou seja, não era tão dependente da água quanto os demais crocodilos. Tinha provavelmente hábitos noturnos e se alimentava de animais mortos, insetos e até vegetais -- fato bastante incomum para crocodilos, que em geral são exclusivamente carnívoros.

À dir., coprólito (fezes fossilizadas) do M. amarali; à esq., os primeiros ovos de crocodilo fossilizados encontrados no Brasil


Incomum foi também a descoberta de fezes (coprólitos) e ovos fossilizados de crocodilo -- pela primeira vez encontrados no Brasil. "Quase não foram encontradas cascas, mas há evidências que indicam o tamanho e o formato dos ovos", afirma a bióloga Claudia Ribeiro, da UFRJ. Em comparação com os dos crocodilos atuais, os ovos de M. amarali parecem um pouco menores. Mas, segundo a pesquisadora, a contração do material ocorre naturalmente durante o processo de fossilização. A casca dos ovos de M. amarali exibe arranjos cristalinos peculiares.

A análise conjunta dos ovos e ossos de sucessivas gerações permite uma melhor contextualização do animal, que viabiliza a futura realização de um estudo morfológico e evolutivo mais apurado. "Isso afasta a falsa idéia de que a paleontologia é uma ciência estática, pontual", salienta Ismar Carvalho. "É preciso ter em mente que o estudo dos fósseis é um longo e continuado processo."

Fernanda Marques
Ciência Hoje on-line
12/07/01

 

 

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