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Duas teorias explicam o desenvolvimento da linguagem articulada no percurso da evolução humana. A primeira admite que a linguagem é uma característica essencialmente humana surgida como conseqüência do aumento do volume cerebral -- o tamanho do cérebro do Homo sapiens sapiens quase dobrou em relação ao do Homo habilis, primeiro hominídeo do gênero Homo e quase dois milhões de anos distante do homem moderno na linha evolutiva. A segunda hipótese contesta que o cérebro tenha aumentado em razão do surgimento da linguagem articulada, que teria aparecido lenta e gradualmente desde o surgimento do gênero Homo.

 

 NOTÍCIAS :: ARQUEOLOGIA E PALEONTOLOGIA

Descobertos mais antigos desenhos abstratos do homem moderno
Inscrições sugerem que linguagem articulada teria surgido 35 mil anos antes do previsto

A descoberta de inscrições abstratas em pequenos fragmentos de ocre pela equipe do arqueólogo Christopher Henshilwood aumenta de 35 para 70 mil anos a distância que nos separa das mais remotas evidências de uma simbologia compartilhada culturalmente. É consenso entre os bioantropólogos que a capacidade de representação abstrata, característica do comportamento do homem moderno, depende do desenvolvimento da fala articulada. "Acredito que a transmissão e o compartilhamento do significado simbólico das inscrições dependia totalmente de uma linguagem sintática moderna plenamente desenvolvida", declarou à CH on-line Henshilwood, que é pesquisador do Museu Sul-Africano. A descoberta, relatada em 9 de janeiro na revista Science, sustenta a teoria que defende a evolução lenta e gradual da linguagem.

Um dos fragmentos de ocre com inscrições simbólicas datadas em 77 mil anos (imagens: Nacional Science Foundation. Confira mais fotos no site da NSF)

Foram encontradas inscrições em duas peças de ocre (tipo de argila colorida pela presença de óxido de ferro), com 5 e 7,5 centímetros cada, descobertas no sítio arqueológico da caverna de Blombos (África do Sul). A peça maior foi aplainada por raspagem -- o que afasta a hipótese de traços feitos ao acaso -- e marcada em seguida com uma série de losangos. Uma linha vertical sobre os losangos divide-os em triângulos e duas linhas paralelas delimitam lateralmente as inscrições. A outra peça apresenta padrões semelhantes. Os achados foram datados em cerca de 77 mil anos pelo método de luminescência oticamente estimulada, que Henshilwood considera altamente confiável. Foram analisados grãos de areia encontrados no local e pedras queimadas situadas na mesma camada geológica que os achados.

Ainda não há consenso sobre os traços de comportamento que diferenciam humanos modernos de seus ancestrais. Os bioantropólogos concordam, no entanto, que imagens abstratas indicam o comportamento humano moderno na medida em que pressupõem um simbolismo compreendido mutuamente por convenção arbitrária e transmitido pela fala articulada.

Entrada da caverna de Blombos, onde foram encontradas as peças de ocre

Os achados da equipe de Henshilwood duplicam o tempo supostamente decorrido desde o surgimento do comportamento moderno do homem. O Homo sapiens sapiens (forma mais evoluída da espécie humana) teria surgido na África cerca de 150 mil anos atrás, mesma datação encontrada para as evidências mais remotas de sepultamento. Até a descoberta das peças de ocre, os mais antigos desenhos do homem de que se tinha notícia se concentravam em cavernas européias e datavam de 30 mil anos, o que os situa no paleolítico superior (a partir de 40 mil anos). São representações da natureza e desenhos geométricos como pontos, curvas, ziguezagues e retângulos.

As peças encontradas na caverna de Blombos indicam a existência de arte, simbologia e fala articulada desde o paleolítico médio (entre 100 e 40 mil anos atrás). Os cientistas desconhecem o significado das inscrições, mas garantem que o ocre não possuía apenas função utilitária. Existem cerca de mais 8 mil peças de ocre na caverna de Blombos, onde as escavações continuam.

Raquel Aguiar
Ciência Hoje on-line
17/01/02

 

 

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