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O mangue em foco Fotos de caranguejeiros de Vitória feitas durante pesquisa antropológica viram livro
Um olhar sensível sobre a antropologia. Principalmente: um canal de transmissão dessa sensibilidade aos olhos dos comuns. Reunidas em um só livro estão algumas das imagens que nasceram de dois estudos -- Os argonautas do mangue, de André Alves, e Balinese character (re)visitado, organizado por Etienne Samain a partir do material da viagem de Gregory Bateson e Margaret Mead a Bali, na Indonésia.
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O caranguejo Ucides cordatus no Manguezal da baía de Vitória. Ele vive na lama, no fundo de buracos com 0,1 m de diâmetro e 0,6 a 1,5 m de profundidade. (foto: André Alves) | | |
A primeira parte traz uma releitura de um ensaio clássico da antropologia -- Balinese character (1942). Nesse livro, os britânicos Gregory Bateson e Margaret Mead -- fundadores da antropologia visual -- unem os registros verbal e visual de sua pesquisa de campo sobre os habitantes da ilha. Em Balinese character (re)visitado, o antropólogo Etienne Samain, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), comenta a trajetória da dupla e soma referências de diversos autores às suas considerações sobre a obra.
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Imagens de Balinese character, feitas em Bajoeng Gede, em 19/8/1937. São as fotos 1, 5 e 9 de uma seqüência de nove. Nota-se a mudança de postura dos personagens ao longo do ensaio (fotos: Gregory Bateson) | | |
O mesmo ensaio de Bateson e Mead inspirou o estudo apresentado na segunda parte do livro. Nela, o biólogo e fotógrafo André Alves, orientado por Samain, apresenta a pesquisa que desenvolveu durante o mestrado pela Unicamp. O alvo da lente de André foi o manguezal de Vitória, Espírito Santo, e as famílias que recorrem a ele para ganhar seu sustento. André teve o primeiro contato com os caranguejeiros quando cursava ciências biológicas na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Mas o protagonista da história contada pelas fotos de André não são nem os manguezais, nem os caranguejeiros: é a relação que se estabelece entre eles. Em algumas imagens o homem se confunde com o mangue.
Muitos bairros de periferia que surgiram do aterro de áreas de mangue em Vitória abrigam hoje a casa de caranguejeiros. A ocupação começou motivada pela facilidade: bastava andar alguns passos para encontrar fartura de caranguejos. Com o tempo, a vizinhança humana tomou o lugar dos crustáceos.
A transformação de manguezais em áreas residenciais foi decisiva para a diminuição da população de caranguejos no entorno das casas, mas em 1989 a prefeitura de Vitória desenvolveu um projeto para conter as invasões da área de mangues e preservar esse ecossistema. Atualmente os caranguejeiros andam mais para pescar, mas, felizmente, ainda podem tirar seu sustento do mangue.
Os argonautas do mangue conta um pouco dessa(s) história(s) e de como Balinese foi fonte de inspiração. A edição primorosa -- com capa dura, papel cuchê e muitas fotos -- vale muito mais do que custa. Nela, os dois estudos antropológicos se uniram para falar de beleza. Com a palavra, as imagens.
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A foto da esquerda é da década de 1940 e mostra uma das regiões onde houve o primeiro grande aterro de manguezais em Vitória. A foto da direita é de 1997, quando a região já abrigava os bairros de Bento Ferreira, Monte Belo, Ilha de Santa Maria e parte de Jucutuquara. Esses são bairros de classe média e, segundo André Alves, não existem caranguejeiros morando no local. Fotos: Pedro Fonseca (esq.) e André Alves (dir.) |
Os moradores dos bairros nascidos sobre o mangue pediram para que a prefeitura aterrasse o que restou dele. A solução foi a mais conveniente -- para a prefeitura, claro: em 1978 começou o aterro do primeiro bairro, São Pedro I, feito com o lixo da ilha de Vitória. A foto é de 1988 e mostra a disputa entre moradores e porcos pelo espaço e restos de lixo. (Foto: David Protti) |
A foto de 1997 mostra o esgoto produzido pelos moradores da região da Grande Goiabeiras lançado diretamente no manguezal, em frente ao bairro de Maria Ortiz. (Foto: André Alves) |
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| Em 1990, quando a região da Grande São Pedro estava praticamente toda aterrada pelo lixo da capital capixaba, os bairros foram cobertos com terra. O lixo não era mais visível, mas ainda estava lá. Atualmente, os resíduos vão direto para o manguezal de onde vem grande parte dos frutos do mar consumidos pela população de Vitória. (Foto: André Alves) |
A foto feita no Mangue do Rodrigo (exemplo de 'mangue mole', onde a lama é atoladiça e não oferece muita resistência), em 29 de janeiro de 1997 mostra uma das técnicas de captura de caranguejos: o caranguejeiro 'fura' a lama com as mãos. Caso saia água do 'furo', é sinal de que ali está a toca do crustáceo. Com movimentos rápidos para que o animal não tenha tempo de escapar, o pescador confunde-se com o mangue ao enfiar o braço inteiro no buraco. (Foto: André Alves) |
A foto mostra outra técnica de captura do caranguejo, com a perna. Esse recurso é usado quando o crustáceo está 'muito fundo', fora do alcance do braço. A técnica só é possível em 'mangue mole', onde a lama é atoladiça e não oferece muita resistência. Imagem feita em Três Barras, no dia 24 de janeiro de 1997. (Foto: André Alves) |
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| O caranguejo pode também ser capturado com uma armadilha feita de fios de ráfia (material dos sacos para transportar farinha ou açúcar). Chamada de redinha pelos caranguejeiros, as armadilhas são colocadas nos buracos dos caranguejos e recolhidas no dia seguinte, inclusive as que não prenderam nenhum animal. (Foto: André Alves) |
A foto tirada em Esteiro de Toco mostra o fenômeno da 'andada', quando as fêmeas dos caranguejos migram para as margens do canal, onde liberam as larvas. (Foto: André Alves) |
O caranguejeiro Valdemar das Neves posa ao lado de uma siribeira (Avicennia schaueriana). A foto foi tirada em um 'mangue duro', onde o solo é uma mistura de areia, lama e outros sedimentos. Nesse tipo de mangue, a lama quase não atola, o que facilita a locomoção. |
Os argonautas do mangue precedido de Balinese character (re)visitado André Alves / Etienne Saiman (org.) Campinas, 2004, Editora Unicamp / Imprensa Oficial do Estado de São Paulo Fone: (19) 3788-7235 / 7786 244 páginas - R$ 50 |
Aline Gatto Boueri Ciência Hoje On-line 30/09/04 |