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 NOTÍCIAS :: ARQUEOLOGIA E PALEONTOLOGIA

Mesopotâmia pode não ser berço da civilização
Artefatos e edificações achados na Síria antecipariam origem das cidades em 500 anos

A descoberta de artefatos e antigas edificações no sítio arqueológico de Hamoukar, na Síria, é mais um indício que põe em xeque a hipótese atualmente aceita sobre os primórdios da civilização. Acreditava-se que sua origem, marcada pelo surgimento da escrita e das cidades, teria ocorrido na Mesopotâmia (atual Iraque) há cerca de 5500 anos, para só então se difundir para regiões adjacentes. Uma expedição realizada pela Universidade de Chicago (EUA) e pelo Diretório Sírio de Antiguidades descobriu vestígios de vida urbana na Síria já em 4 mil a.C., aproximadamente cinco séculos antes do esperado.

Ruínas do prédio queimado onde os artefatos foram encontrados. À dir., o muro que teria cercado a cidade. (imagens: Universidade de Chicago)


O arqueólogo McGuire Gibson, coordenador da expedição, defende que se adotem as mudanças na estrutura social -- e não o estabelecimento de cidades e a escrita -- como marcos da origem da civilização. "Os artefatos e edificações encontrados em Hamoukar implicam a existência de hierarquia, burocracia e possivelmente de um reinado", esclarece. As escavações revelam que já havia uma estrutura urbana na Síria em 4 mil a.C., embora não tenha sido constatada a presença de escrita (apenas de sinais gráficos usados para numeração).

No sítio, foi descoberta a estrutura de um prédio sob um muro com mais de 20 metros de extensão que cercava a cidade. Na edificação, foram encontradas centenas de artefatos, entre jarros, vasos de pedra, pilões e timbres de diversos tamanhos e formatos. Alguns são decorados com padrões geométricos e outros, maiores, trazem a imagem de animais como ursos e leões -- os últimos associados à realeza na simbologia mesopotâmica. Segundo Gibson, as diferenças entre os timbres sugerem a existência de uma complexa estrutura social e indicam a formação de uma burocracia com funcionários de diferentes níveis, possivelmente comandada por um rei.

Talvez o mais importante timbre descoberto seja este, em que um leão morde a perna de um bode. Na arte mesopotâmica, leões estão associados à realeza

O arqueólogo observa que, embora as estruturas encontradas em Hamoukar recubram uma superfície de apenas 33 hectares (menor, portanto, do que se convencionou chamar uma cidade), o sítio teria funcionado como uma área urbana. Escavações anteriores da mesma expedição, iniciada em 1999, haviam identificado antigos fornos que teriam servido para alimentar grandes contingentes de pessoas. A descoberta já levantava a suspeita de que a civilização teria surgido em diversos centros, em um processo difuso anterior à expansão da Mesopotâmia em 3.500 a. C.
 
Gibson considera que as evidências descobertas -- o prédio central, a muralha da cidade, os artefatos administrativos e os grandes fornos -- indicam que burocracia, contabilidade, estratificação social e possivelmente o sistema monárquico foram criados mais cedo do que se pensava, anteriormente à ocupação do território por povos da Mesopotâmia. As descobertas em Hamoukar sugerem que o desenvolvimento da civilização foi um processo longo e descentralizado, que ocorreu simultaneamente em diversos lugares do Oriente Próximo e não apenas na Mesopotâmia.
 

Timbre em pedra negra representa dois ursos sentados sobre seus quadris, se beijando

 

 

 

 

 

 

 

 

Raquel Aguiar
Ciência Hoje on-line
24/06/02

 

 
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