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Encontrado mais antigo registro de escrita das Américas
Evidências sugerem que olmecas já usavam glifos e calendários por volta de 650 a.C.
Um grande achado acaba de retirar dos zapotecas -- povo pré-colombiano que viveu entre 500 a.C e 700 d.C. -- o reconhecimento pela invenção da escrita no continente americano. A equipe da antropóloga Mary Pohl, da Universidade Estadual da Flórida (EUA), descobriu inscrições de glifos (pictogramas gravados em pedra) datadas de 650 a.C. no sítio de San Andrés, na costa do golfo do México. O artigo que relata a descoberta, publicado em 6 de dezembro na revista Science, atribui aos olmecas -- civilização pré-colombiana que viveu entre 1300 a.C. e 400 a.C. -- o uso pioneiro nas Américas de um sistema formal de escrita e de um calendário.
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Um selo cilíndrico de cerâmica (esq.) e fragmentos de uma placa de jade (dir.)trazem os mais antigos registros de escrita nas Américas (reprodução/Science) | |
"Os olmecas foram a primeira civilização na Mesoamérica, os primeiros a ter uma arquitetura monumental e grandes centros urbanos", disse à CH on-line, por e-mail, Mary Pohl. "Seria estranho que eles também não tivessem usado a escrita. Mas até aqui não tínhamos provas." Embora já desconfiassem das inovações dos olmecas, os pesquisadores foram ao México apenas em busca de indícios da prática da agricultura por esse povo. "Queríamos descobrir em que contexto econômico eles se tornaram a primeira civilização da Mesoamérica", explica Pohl.
Foi por acaso, em meio a restos encontrados num sítio olmeca -- que incluíam ossos humanos e de animais, além de vasilhas usadas para servir bebidas e comidas --, que os pesquisadores encontraram objetos com inscrições de glifos que confirmaram sua suspeita: um selo cilíndrico de cerâmica de sete centímetros de comprimento e fragmentos de uma placa de pedra verde.
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A inscrição do selo cilíndrico (os glifos que saem do bico do pássaro) traz o nome de um monarca: Rei 3 Ajaw | |
Na inscrição do selo, um pássaro aparece como marcador de discurso: os sinais que saem de seu bico são palavras, não um desenho. Para desvendar seu significado, os pesquisadores fizeram associações dos pictogramas olmecas com hieróglifos maias posteriores e descobriram que o primeiro texto conhecido do continente americano se resume a um nome: Rei 3 Ajaw. A palavra 3 Ajaw refere-se ao terceiro dia do 'mês' ajaw, uma das subdivisões do 'ano' no calendário religioso de 260 dias adotado pelos olmecas. Seu uso segue a prática mesoamericana de adotar a data de nascimento como nome e representa a primeira evidência documentada de calendário.
Já os glifos nos fragmentos da placa de pedra verde permanecem um mistério para os pesquisadores, que não conseguiram traduzi-los. Eles puderam, no entanto, identificar sua semelhança com glifos encontrados em textos posteriores, produzidos pelos maias e outros povos mesoamericanos. Pohl acredita que a placa era utilizada como jóia pessoal. Já o selo cilíndrico seria utilizado para imprimir o símbolo do Rei 3 Ajaw em vestimentas da época. "Era uma forma de mostrar ligação com o rei e pertencimento à elite", explica.
A equipe seguirá com as escavações em busca de dados sobre o sistema político olmeca. "Também esperamos encontrar evidências sobre a relação de poder do rei [que ficava no centro da civilização olmeca, em La Venta] com centros menores como San Andrés", diz Pohl.
Elisa Martins Ciência Hoje on-line 19/12/02 |