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Novos caminhos para a química
Pesquisas de Otto Gottlieb revelaram 'linguagem' das plantas da Amazônia
"Cientista e mestre reconhecido mundialmente que, através de sua síntese interdisciplinar da química de plantas e da investigação em evolução botânica, abriu novos caminhos para a ciência." A citação, do diploma de Doutor Honoris Causa dado pela Universidade de Hamburgo (Alemanha), define bem a participação de Otto Richard Gottlieb na história da química de produtos naturais no Brasil e no mundo. Ele formou a escola de fitoquímica no país e suas pesquisas são responsáveis por boa parte do pouco que se conhece da composição química das plantas da Amazônia.
Gottlieb nasceu em Brno, na então Tchecoslováquia, em 31 de agosto de 1920. Fez seus estudos básicos lá e na Inglaterra, e chegou ao Brasil em 1939, três anos após o resto da família. Sua mãe era brasileira e, aos 21 anos, ele se naturalizou. O interesse pela ciência é herança de família: "meu pai era químico filho de químico". Seu filho mais velho também seguiu o mesmo caminho, e hoje é especialista em ressonância magnética nuclear em Israel. "Foi o professor Gottlieb quem trouxe a técnica para o Brasil", diz sua assistente, a farmacêutica Maria Renata Borin.
A carreira do químico é extensa. Desde sua formatura, em 1945, ele se dedicou à indústria, pesquisa e educação. Em seu currículo, há a descoberta de substâncias químicas, a fundação de cursos e até a criação de uma disciplina nova reconhecida pelo Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Seu prestígio foi fundamental para trazer um congresso da União Internacional de Química Pura e Aplicada (Iupac, na sigla em inglês) para o Brasil em 2000 - para hospedar o congresso, é necessário, entre outros, que o país candidato comprove que terá verbas para financiá-lo quatro anos antes.
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Gottlieb com Renata Borin no apartamento em que montou uma unidade de pesquisa | | |
Aos 80 anos, Gottlieb continua infatigável: é pesquisador visitante da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e viaja para congressos em todo o mundo. Conseguir um horário em sua agenda é uma tarefa árdua, embora sua boa vontade seja imensa. Hoje, o químico trabalha no Rio de Janeiro com uma equipe de pesquisa no apartamento embaixo do seu, onde livros e fichas ocupam até os armários da cozinha. "Uma bibliotecária vem duas vezes por semana", diz o cientista. Na sala, há uma mesa comprida para aulas. "O sonho dele é montar uma fundação para estudar produtos naturais", conta Renata. "Mas precisamos de alguém para administrar e conseguir a verba."
Para seguir a carreira de químico, que exigia muitas viagens, Gottlieb teve de abandonar a de crítico de ópera, que levou em paralelo até seu ingresso na Universidade de Brasília (UnB). "Eu ganhava entrada gratuita no Municipal", diverte-se. Embora continue ouvindo ópera nas horas vagas, o químico não sente falta de sua outra carreira. "Ciência é como uma cachaça. Depois que você começa, não quer mais parar."
Renata Ramalho Ciência Hoje/RJ março/2001 |