Otávio Carneiro era engenheiro e diretor técnico da única fábrica de vagões que havia no Brasil, a Trajano Medeiros e Cia. Algumas vezes levou o filho Fernando para a obra da sede do jornal A Noite, na Praça Mauá (Rio de Janeiro), na qual trabalhava como fiscal. Esse foi o primeiro edifício com mais de oito andares de concreto armado erguido no mundo -- até então, os arranha-céus de Nova Iorque e Chicago possuíam estrutura metálica. A influência do pai foi grande na escolha da carreira de engenharia. Um ano após a visita ao prédio de A Noite, Lobo Carneiro ingressaria na faculdade, com apenas 16 anos.
"Meu pai não era católico nem acreditava em santo, nem em Deus; acreditava na natureza", lembra Fernando. "Era um grande admirador de São Francisco de Assis e começou a escrever sua biografia. Morreu antes de concluir." A pedido do presidente da república Venceslau Brás, Otávio Carneiro desenvolveu a navegação sobre o Rio São Francisco. Morreu aos 54 anos nesse mesmo rio, quando Lobo Carneiro era adolescente.
Otávio Carneiro foi precursor do sistema de ensino técnico no Brasil. Positivista e portanto inconformado com o problema social, criou oficinas em que os filhos dos operários eram aprendizes. "Havia uma escola dentro da oficina, em que lecionava professora Ermengarda -- hoje, nomeia uma rua no Humaitá (RJ)", o professor revela. Seu pai levava os meninos aprendizes para passar férias na fazenda junto com seus filhos.
Em certa ocasião, o governo começou a atrasar o pagamento dos vagões que a fábrica de Otávio Carneiro produzia. Não teve dinheiro para pagar os operários, que entraram em greve. Ele reuniu todos e fez um discurso, dizendo que não chamaria a polícia, o que era hábito entre empregadores da época. Assim, entregou a fábrica aos operários como pagamento, efetivando preceitos do socialismo utópico, segundo o qual os próprios capitalistas realizariam a partilha dos meios de produção com o operariado seguindo a orientação da sua racionalidade.